Durante anos acreditei que todos aqueles que vivem em qualquer país que apresenta índices altos de qualidade de vida, saúde, segurança, educação, oportunidades de trabalho, perspectivas de aposentadoria, condições de aquisição de bens materiais seriam felizes, formariam sociedades perfeitas. Imagina, pensava eu, como será maravilhoso viver na Suécia, na Suíça, ou Inglaterra, Dinamarca. No Canadá! Até nos Estados Unidos.
Idealizava e invejava situações que me reportaram pessoas que viveram estas e outras experiências ao longo de anos. Esquecer a porta do carro aberta e, ao voltar, encontrar bolsa com dinheiro, compras feitas, agasalhos caros nos bancos, como deixara minutos ou horas antes. Receber de volta intacta, invulnerada e imaculada a carteira com documentos, cartões de crédito, dinheiro e fotografias perdida em local público e abarrotado de gente. Atravessar ruas ou andar por elas com segurança. Dormir com tranquilidade, mesmo que os filhos ainda não tivessem retornado à casa. Ser atendido com presteza, delicadeza e competência nos hospitais ou em postos de atendimento público. Não sofrer discriminação por causa de cor da pele, crença política ou fé religiosa. Ter escolas funcionando segundo moldes pedagógicos modernos, nas quais atuassem professores felizes com seus planos de carreira, respeitados pelos pais e pelos alunos que já viriam de casa com um mínimo de educação e polimento. Tais e tantas outras coisas do gênero, que garantem o que defino qualidade de vida.
Admito, acho delicioso, esclarecedor, maravilhoso, aproveito como a um prêmio que a vida me dá as oportunidades de viajar, permanecer alguns dias em cidades que me ofereçam esse tipo de conforto inimaginável. A sensação de segurança, a impressão de que ali, onde aportei, já aconteceu tudo e nada mais pode surpreender, é revigorante. Aumenta quando converso com alguém da terra.
Dinamarca, Copenhague. O povo é feliz, sorri muito, são bonitos demais: homens, mulheres e crianças. Conversamos com alguém local e perguntamos sobre qual o valor do salário mínimo, se é que têm um. Não, não existe, há salários e trabalhos, claro, mas cada um requer o seu, segundo a própria competência. Bem, insistimos: apenas como referência, quanto ganharia o caixa daquele supermercado? Respondem em coroas, moeda local, valor que revertido para dólar, nos fazem babar de inveja e quase cair do banco de jardim, onde a conversa foi entabulada: cerca de 2 800 dólares. Porém, acrescentam, nada menos que 46% voltam para o governo em forma de impostos. Todavia, explicam-nos, não se gasta com educação — garantida do berçário à universidade para todos os jovens e crianças. Têm atendimento perfeito, na necessidade de médicos e hospitais. Quase todos os tratamentos odontológicos são igualmente gratuitos. Alimentação não explode o orçamento. Planos para aquisição da casa própria são acessíveis. Não sonham com carro próprio.
Difícil nossa cabeça tupiniquim entender, consideram carro esbanjamento, manifestação de luxo e atitude egoísta porque carros poluem e ocupam espaço demais. Aliás, percebe-se, quase não há estacionamentos e paga-se uma fortuna por vaga eventualmente ocupada. O sistema de transportes é perfeito: metrô, ônibus e principalmente bicicleta — profissionais, estudantes, mães, jovens, todos andam sem risco algum de cair ou ser derrubado. É ou não é viver no paraíso?
Já foi. Ou seria, não fosse mero detalhe. Desde que os países desenvolvidos se escancararam para acolher imigrantes, foragidos de guerra e asilados, mudou. Do lay-out ao Ph. Sim, os países ricos devem olhar com mais humanidade os países pobres e miseráveis e a História sugere aparecimento de nova horda de bárbaros, surgida dos descontentes e famintos. Todavia há realmente algo de muito errado aqui na Dinamarca e nos países mais desenvolvidos.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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