Voltava lentamente para casa com meu neto, tarde dessas. Vinha passeando pelas ruas quando o celular tocou. Era um dos filhos, vi pelo visor. Atendi. Ele precisava de um documento, não achou, embora eu garantisse que estava no meu escritório. Falávamos pelo WhatsApp, pedi-lhe que passássemos para o FaceTime para vasculhar com a câmera os lugares que eu indicaria. Pois ele achou a pasta, os documentos, ainda conversamos bastante, trocamos notícias. Isso durou cerca de vinte minutos, não gastamos um tostão sequer. O mais incrível: ele estava na nossa cidade, em Franca, Brasil, eu estava em Londres, Grã Bretanha. Surpreendente! Rimos um bocado juntos quando comentamos a que ponto chegou a tecnologia e a naturalidade e a banalidade com que a utilizamos.
Nos anos 50 minha avó materna morava em Uberlândia, berço da CTBC. Frequentava o centro espírita e, no trajeto de sua casa à casa religiosa, passava em frente ao escritório daquela empresa de telefonia, que ficava no meio do caminho. Ali, as ligações eram feitas pelas telefonistas de fone nos ouvidos e monte de plugues nas mãos que habilmente manipulavam. Sentavam-se atrás do balcão de atendimento, embora todos seus movimentos pudessem ser acompanhados, e elas mesmas serem vistas da rua, pelos que passavam.
Havia uma série de cabines que circundavam o espaço, onde as pessoas se acomodavam para completar as chamadas inter ou urbanas mesmo, que não era todo mundo que possuía o aparelho em casa. Vovó não tinha telefone e sua única filha morava algumas centenas de quilômetros distante dela.
Quando ela ia rezar, passava pela porta da CTBC e deixava recado com a telefonista se iria ou não poder falar com mamãe naquela noite. Quando passava de volta para casa, tinha resposta e avaliação da situação que a moça lhe transmitia. Que minha mãe ligara, que estava tudo bem, que conversariam outro dia, ou que ela aguardava retorno aquela noite mesmo, a depender da turbulência que atravessava. A telefonista e mamãe se conheciam pouco, ou se desconheciam, mas a intimidade entre elas era assaz grande.
Não raro, quando as tempestades arrasavam plantações entre Uberlândia e Franca, caíam postes que sustentavam fios que permitiam o funcionamento dos telefones. Resultado: até que fossem consertados, literalmente não tinha conversa entre algumas cidades mineiras e paulistas, servidas pela companhia. Comunicação entre cidades brasileiras e Brasil e outros países via telefone, só com aparelhos do Flash Gordon. Não sei se nem entre os países da Europa isso era viável. Acho que só em Hollywood, mesmo.
Nos idos 80, mês de julho, era hora de visitar minha irmã em Pouso Redondo, Santa Catarina. Saindo de nossa cidade, chegar lá era tarefa que demorava cerca de doze horas. Com sorte. E de avião. Enfrentávamos estoicamente o frio com o calor da hospedagem, e as singularidades da pequena comunidade barriga-verde de mil habitantes. Havia apenas um telefone na cidade. Ficava na sala de estar da casa da telefonista, ela atendia os usuários por ordem de chegada. Sentávamos em volta da sala, como visitas, ela discava o número que lhe era fornecido e, enquanto alguém falava, os demais faziam silêncio. Bem, se era venda de produtos agrícolas, os demais palpitavam sim: sobre o preço.
Nos anos 90, ao visitar o Epcot Center, na Disney, lembrei-me dessas histórias que envolvem familiares e telefonia porque, numa simulação de passeio pelo futuro, mostraram que haveria um dia bem próximo, em que as pessoas conversariam com as outras através de pequenos aparelhos e que seria possível estabelecer contato visual com quem estivesse distante léguas e léguas. Imaginei a surpresa delas, se pudessem acompanhar a evolução do aparelho telefônico e da comunicação. Nem sequer supus que aquele futuro estava próximo e que eu me beneficiaria com as invenções.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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