Linguagem


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Netos, como filhos, são presentes dos deuses do Olimpo. São prêmios da vida. Produções divinas, por vezes trazem mais características deles, que dos ascendentes familiares e de sangue. Surgem, em todas as famílias do mundo todo e em quaisquer gerações, novos Zeus, Netunos, Afrodites, Heras, Atenas, Ares, Apolos, Ártemis e Hermes. Nas novas edições, representadas por nossos netos, suas características nos chegam visível e incontestavelmente realçadas. Nascem — na nossa ótica — com personalidades fortes e são muito mais bonitos, inteligentes, determinados, bravos, corajosos, geniosos, espertos, rápidos, habilidosos e astutos que os próprios pais. Que todos os outros de suas respectivas gerações. Que todas as crianças que já existiram. Ou existirão. 
 
É mágica a relação que se estabelece imediatamente entre netos e avós, tão logo entram em contato. Mensurados, área, peso e extensão do amor por netos, filhos de filhos ou filhas, são absolutamente os mesmos. Formas e configurações, no entanto, são diferentes. Porém, em cada um deles, como num passe de mágica, você descobrirá todos os dias, motivos para amar cada vez mais. Sempre mais. (Ao se tornar avô ou avó, a pessoa adquire a real compreensão do infinito significado de mais.)
 
Inauguramos a condição de avós com Luísa, há catorze anos. Depois vieram Clara, Maria Fernanda, Lucas, Marina e recentemente, Thomas. De dois filhos mais velhos vieram as duas meninas; da filha, os dois meninos. Com a convivência com as netas, que moram perto, ganhei a oportunidade de aprender a ser avó. Com os dois netos, que nasceram distantes, pratiquei e ganhei desenvoltura de avó cuidadora. 
 
Thomas não fala compreensivelmente, ainda. Com um ano e quatro meses possui linguagem especial, criada por ele. Trilingue, à sua maneira. Emite sons e se faz entender. O pai e o irmão falam com ele em inglês e ele entende. A mãe e eu falamos com ele em português, e ele entende. O pai, amigos, vizinhos e parentes falam em inglês com Lucas. A mãe e eu falamos português e ele entende. Sempre nos respondeu em inglês, mas temos forçado que nos responda também em português. Tem sido interessante. Distante da presença da mãe, e principalmente do pai, ele exercita na aquisição da linguagem. 
 
A palavra cadê é a que ele mais utiliza no dia-a-dia, alem do forte sotaque. Cadê você vai? ele pergunta quando saio. Cadê você foi? pergunta quando volto. Cadê agora você tem lunch? Cujo significado é em que lugar nós iremos almoçar? E minha frase predileta: Aonde vai você agora cadê? quando me apronto para sair. Adivinhe: para onde você vai? Não tem ainda idéia de conjugação de verbos e confunde tempos e pessoas: Já pode, diz, se vê algo de comer apetitoso. No dia do calor federal que fez o londrino suar bicas, ele disse, se abanando: Eu ter muito quente! Quer me apressar, diz: Gente vai agora? Andávamos na calçada, topamos com lambança de cocô de cachorro pisado. Olhou, fez cara de nojo e soltou: É muito credo, vovó! Esperávamos o metrô; quando o trem chegou, ele me perguntou: Esse aqui é eu? 
 
Agora mesmo, que espirrei alto, ele gritou lá do sofá onde joga qualquer coisa no Ipad: Satíu! Meu sexto sentido diz que queria dizer ‘Saúde!’, o mesmo que digo a ele, quando espirra. 
 
Acho que Lucas tem feito bonito. Esforça-se por falar e por compreender. Inventa palavras, apropria-se de outras, só tem vergonha do pai. Fica mudo perto dele, o que talvez seja certo constrangimento porque o pai não se esforça nada para falar uma sílaba sequer em português. 
 
Atualmente, a bem da verdade. Antes da Copa do 7x1, dizia fluentemente os nomes dos jogadores e seus times de origem; depois do fracasso, só diz Pelé e olhe lá!
 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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