Há quem tenha mais sorte. Não tivemos. Meus irmãos e eu convivemos com papai muito pouco tempo. Nem éramos tão adultos assim, ele partiu. Na verdade, o caçula tinha catorze anos. Deixou, como quase todos os pais deixam, rombo físico enorme nas nossas vidas. Em compensação, deixou histórias, ensinamentos, casos, brincadeiras, amigos sinceros e amor, muito amor para que pudéssemos nos lembrar dele, sempre. Algumas histórias nas quais era protagonista são recorrentes, quando falamos dele. Outras, mesmo tão distantes daquele março de 1973 que fechou o ciclo terreno de sua vida, ainda chegam com sabor de fato atual. Isso mantém sua memória viva e prova que, quando temos humor e vivacidade, de certa forma, somos ligeiramente imortais.
As histórias ainda lembradas pelos colegas de banco perpetuam sua humildade, sua contagiante alegria e sua distração na execução das tarefas profissionais. Dizem, quando ele errava digitação de documento na máquina de escrever — era o tempo das Olivettis e Remingtons — apagava com borracha, nem sequer se tocava que havia carbono entre a primeira e segunda vias. Resultado: alguém refaria o trabalho, que tinha virado um borrão só.
Lembram da facilidade e propriedade com que ele achava apelidos para os colegas. Aquele sério, altivo, calado e distante dos outros, virou Coronel. O outro, cheio de pose, sempre de peito inflado, orgulhoso, poderoso, era o Boi. O magrinho elétrico, sempre de lá para cá, quase aflito, tornou-se o Perereca. E tinha o Biscoito, mineiro calmo, sossegado, tranquilo, pachorrento. Nessa época ninguém considerava bullying brincar com apelidos, mesmo porque ele era mais conhecido como Bezerrão e achava graça quando o chamavam de Ticobáu e repetiam a quadrinha logo após: ‘Ticobáu, manga foguinho, tripa seca não dá nó.’ Não sei o motivo. A lembrança ficou, a compreensão, não.
Por que Bezerrão? Meu avô tinha barbearia no centro da cidade, onde os fazendeiros deixavam latões de leite para serem recolhidos e envasados para distribuição. Ele os abria, tomava o leite e completava com água mesmo. Descoberto, abandonou a prática, mas pespegaram-lhe o apelido.
Teve defeitos, sim. Ele não nos ensinou a rezar, mas a amar e respeitar o semelhante. Punia os filhos com certa violência, mas era capaz de defender-nos em quaisquer circunstâncias. Não virou santo na nossa adoração, depois da morte. Mas foi sábio, como todos os pais são. Não faz muito, enviaram-me texto que, ligeiramente modificado, dá pra ver meu pai a gotejar na minha cabeça e na de meus irmãos, cada frase. Ainda atual, reza:
‘Ajude os menos afortunados. Aprenda com seus erros. Aprenda outro idioma além do seu. Cuide de seu corpo para ele cuidar de você. Dê gorjeta por bom serviço e nunca recompense e considere afronta todo mau serviço. Dê o seu melhor em situações de aprendizagem. Divirta-se sempre que puder. Nunca desista! Nunca sinta pena de si mesmo. Nunca abandone um amigo. Nunca inicie conversa com estrangeiro, sem primeiro cumprimentá-lo em sua língua materna. Orgulhe-se de você e de onde veio, mas abra sua mente para outras culturas. Prepare-se para colocar os interesses do seu irmão à frente dos seus. Respeite a idade das pessoas. Seja cortês. Seja pontual. Seja generosa, atenciosa e compassiva diante da dificuldade alheia. Seja humilde. Sempre diga ‘por favor’ e ‘obrigada’ e tenha certeza de usar o garfo e a faca de maneira correta. Sempre trate quem acabou de conhecer como seu igual. Sempre olhe para o lado bom de todas as situações. Só compre aquilo que você pode pagar. Tenha coragem moral: faça o que é certo, mesmo que isso a torne impopular. Treine para seu instinto se habituar a dizer sempre ‘sim’. Aceite convites para festas. E viva o máximo de cada dia, todo dia.’ Saudades dele.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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