Política, cor, futebol e religião são assuntos polêmicos. Discutir sobre tais temas traz consequências desastrosas e indesejáveis, além de mal-entendidos, más interpretações e conclusões equivocadas. Se o interlocutor for amigo, se for alvo de apreço e consideração, melhor botar a viola no saco e sair de mansinho do local, quando o bate-papo enveredar por aí. Se o abismo entre as opiniões for intransponível melhor, além de sair de cena, botar fim na amizade, para evitar ofender, magoar ou ferir em ocasiões futuras.
A bem da verdade, preferência de cor é assunto que não chega a romper laços de afeto. No máximo, ao fim da contenda, cada um irá para seu lado, e talvez lamente a falta de gosto do outro, que pintou a casa de roxo, e acredita que a escolha foi demonstração de apurado bom-gosto. Não se sabe se cores são as mesmas para as pessoas. Se o azul que se vê é o mesmo azul que seus filhos veem; se o verde das plantas é o verde como seu jardineiro enxerga. Se o amarelo do sol é universal e se o vermelho do batom, é do mesmo tom das rosas do vaso, como asseguram.
Futebol, assunto polêmico. Quando as pessoas se empolgam e se desentendem por causa da preferência por determinado time, o resultado é briga feia. Todavia, depois que o Brasil foi reconhecidamente representado por timeco na última Copa; que se percebeu que os jogadores brasileiros estão mais interessados em ganhar dinheiro, que ganhar jogo; que já foi o tempo em que o futebol brasileiro era arte pura e amor à camisa do time; que foi preciso tomar 7x1 na cabeça para nos amadurecer, é provável que o torcedor agressivo tenha se abrandado. Logo, logo, no campo os jogadores defenderão civilizadamente a camisa do time, os torcedores se separarão apenas para torcer e fazer fusquinha para o adversário. Dentro em pouco tempo perceberemos todos que, ao fim do jogo, voltamos a ser criaturas que batalham no cotidiano para defender o pão de cada dia e que brigas, ofensas ou ataques é para animais irracionais.
Outra situação desagradável e constrangedora é provocada pelas discussões sobre religião. Ao fim, não se chega a conclusão alguma, as partes saem ofendidas, bufando, lamentando a obtusidade alheia, mal satisfeitas e inimigas.
Tratando-se de pequenos grupos o final é desagradável; em grandes grupos, é guerra. Em nome da fé e do fervor religiosos misturados com fanatismo e escusas razões políticas, matou-se nas Cruzadas, na Inquisição, mata-se no Afeganistão, na Nigéria, Iraque e Israel.
Quer tornar-se desagradável na roda de bate-papo? Ser considerado o chato do grupo? Discuta e defenda veementemente sua visão política. Esqueça o fato de que sempre haverá vozes em discordância; que opiniões são como impressões digitais: não há duas iguais. Sustente seu ponto de vista com o uso de achismos, chavões e opiniões de seus pares divulgados pelas cartilhas políticas. Finja-se de surdo: quando o opositor estiver no meio da defesa, entre com tudo e derrube com veemência quaisquer argumentos. Técnica infalível para ser o chato da vez: fale mal dos políticos que o grupo defende. O ataque é a melhor defesa.
Cuidado: se o assunto for malbarateamento do dinheiro público, desperdício, desvios de verbas públicas, argumente: sempre foi assim, a prática vem desde os tempos do descobrimento, a desonestidade está no DNA dos brasileiros.
A Educação vai mal? Discorde: as escolas estão aparelhadas, professores satisfeitos, finalmente brasileiros e brasileiras ocupam os bancos escolares, a igualdade se instalou, o resto é propaganda contra. Defenda os discursos da Dilma. Afirme que Lulinha é o novo deus das finanças, símbolo da multiplicação e que nunca antes, na história desse país, o povo foi tão feliz.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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