Diante do quadro crítico apresentado pelo bebê, a mãe assentiu em levá-la para tratamento em Ribeirão Preto. Madrugada. A estrada que ligava as cidades tinha pista simples e, nas madrugadas semelhantes àquela, em alguns trechos a neblina impedia visão de média, quanto mais de longa distância. Embora curto, durou uma eternidade o trajeto. À porta do hospital, o pediatra já esperava por eles e aquele foi o primeiro contato entre o profissional, a família e o bebê. A equipe, formada por dois outros médicos além daquele, trabalhava coesa.
Todavia falar daqueles médicos sem fazer referência às enfermeiras e atendentes que os assessoravam é injustiça. Aqueles especiais pediatras ribeirãopretanos tinham Neusa, espécie de faz-tudo, parte integrante da orquestra. Era um azougue. Atendia ao telefone, tomava temperatura e pesava os bebês. Tinha na cabeça o calendário de vacinas das crianças. Ligava para as mães quando elas se descuidavam ou esqueciam de tais providências. Ora antecipava-se às orientações dos chefes: ‘Neusa, o menino está assim ou assado!’ ‘Pois vá direto ao hospital, que eu aviso ao doutor que você está lá!’. Ora ela nos tranquilizava: ‘Isso é só um incidente isolado, o quadro está bom!’. Nós, jovens mães, acreditávamos nela, que coadjuvava o espetáculo com eficiência e delicadeza.
Falar em Neusa, faz lembrar de Zefa, Maria Inês e Altina. Enfermeiras importantes na memória dos francanos, quando no tempo da brilhantina. Zefa, Josefina, era enfermeira e auxiliar de consultório do dr. Ismael Alonso Y Alonso. Pequena, frágil de compleição e estatura, foi gigante no auxílio ao médico. Naquele tempo quase todos os bons e maus rapazes da cidade tinham igualmente péssimos hábitos e exibiam iguais comportamentos os quais, muitas vezes, evoluíam para aparecimento de doenças venéreas, algumas derrubadas só pela temível Benzetacil. Não se sabe se os rapazes que os procuravam tinham mais medo da injeção ou do olhar da Zefa. Pelo que contam, talvez fosse da régua com a qual Zefa derrubava o involuntário entusiasmo peniano apresentado por alguns durante o exame e manipulação local necessária para o diagnóstico. Pelo íntimo, específico e vasto conhecimento, é provável que Zefa sofresse alguma inveja da população feminina francana da época.
Maria Inês era enfermeira do dr. Carlos Signorelli, pediatra francano. Alta, alegre, presença forte. Naquele tempo médicos iam às casas dos pacientes. Não importa se por causa de furúnculos, dor de garganta, otites, sarnas, catapora, sarampo ou se sofrêramos ataques de cães. Houvesse necessidade, se não era emergência, à tardezinha chegavam dr. Signorelli e Maria Inês. Na valise de couro que ela carregava, traziam seringas que eram desinfetadas na caixinha de metal, cuja tampa servia de fogareiro. Ali mesmo, na sala ou quarto, nos aplicavam anginobismuto com penicilina na nádega, líquido vermelho que deixava o local insuportavelmente doído. Ali mesmo nos colocavam à frente do raio vermelho para banho-de-luz ou acompanhavam a aplicação de vacinas na barriga, para prevenir a raiva, em caso de mordidas de cães.
Dona Altina era parteira. Durante gerações recebeu e deu boas-vindas a incontáveis crianças francanas, acompanhou o nascimento de outras centenas. Presença constante nas salas de parto, sua experiência valia ouro para os obstetras. Magra, estatura média, tranquila, parcimoniosa nos gestos, ia ao quarto das mães inexperientes e as ensinava como amamentar. Além de informar os obstetras sobre o andamento dos partos dava broncas, era ouvida com respeito pelos profissionais e significava segurança para médicos plantonistas iniciantes que não se envergonhavam de pedir seu parecer nas emergências ou imprevistos.
Falar em enfermeiras do passado remete a nomes e figuras de Elma, Karla, Elisete e Flávia assessoras dos médicos desta atual fase da minha vida. Nenhum pediatra, evidentemente.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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