Lembramentos


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Quase nove meses de gestação, nasceu o segundo filho. Lindo. Forte. Dentro do peso e da normalidade. Incríveis olhos azuis e, parecia, forte tendência para se manter vivo. Festa na taba. Quinze dias depois, recuperada do trauma, do stress e quase com os pés no chão, a mãe percebeu que a criança não adquiria peso. Visita de rotina ao pediatra revelou que, de fato, após aquela perda de peso inicial, o garoto não engordara. Pior: começara a ter cólicas, devolver o que mamava e, parecia, algum sinal muito leve de sangue nas fezes. Péssimo sinal, por sinal. Volta ao pediatra, pânico. Vigilância constante, noites sem dormir, uma semana depois nenhuma melhora no quadro, o médico, na madrugada em que o menino vomitara um sem número de vezes e apresentara temperatura alta, confessou à mãe: melhor levar a criança para Ribeirão Preto, para ser vista por seu antigo professor de Pediatria, a quem ele já acorrera dias antes, ao perceber tratar-se de caso difícil. 
 
O casal chegou à porta do hospital, alta madrugada, foi recebido por homem de estatura média para alta, magro, ligeiramente calvo, óculos na frente de dois olhos brilhantes e perscrutadores. Ele tomou a criança dos braços da mãe e a levou, como se fosse dele, para a sala de atendimento de emergência, no fim do corredor escuro. Nem conversou. Tomou providências, chamou dois colegas de equipe, discutiram. No meio da manhã, quando o bebê recuperava cor e respirava sem espasmo, ele deu o diagnóstico. Não tinham ideia do que a criança poderia ter. A anamnese sugeria ora uma síndrome, ora outra. A verdade: naquele momento estava fora de perigo. Ficaria internada. Uma semana depois, voltaram para suas respectivas casas.
 
A criança foi levada ao médico muitas vezes, outras tantas foi internada, a ponto de fazer nascer alguma intimidade entre a equipe e aquela mãe que lhes telefonava, mesmo na madrugada, quando se sentia insegura. Nas visitas rotineiras, o chefe chamava os colegas, a trinca ficava em volta do menino examinavam, discutiam, trocavam pareceres. Coquetel de remédios, alguns deles importados, leite de soja, estranhas e ousadas prescrições como farinha de banana na dieta, vigilância, cuidados, sustos. O garoto arribou. Mais dois anos, gordo, rosado, incríveis olhos azuis, teve alta. Continuou cliente bem mais tempo, e ainda levou o irmãozinho recém-nascido e a irmã mais velha com ele. Os médicos, Luiz Carlos Raya, Edgard Achê e Mariano de Oliveira ficaram como ídolos, ícones e referências de competência, carinho e carisma na família. 
 
Luiz Carlos Raya teve intensa atuação política em Ribeirão Preto e região. Secretário da Saúde em três governos da cidade, iniciou a implantação das Unidades Básicas de Saúde. Pertenceu à Academia Ribeirãopretana de Letras, escreveu dois livros, é nome de parque naquela cidade e personagem do folclore que envolve impaciência médica com mães relapsas na falta de cuidado com os filhos. Edgard Achê, igualmente competente na pediatria, era o oposto: espírito bonachão de pescador e fã de música sertaneja. Do triunvirato médico, cujo consultório funcionou durante 32 anos e atendeu cerca de 35 mil crianças e adolescentes, ficou apenas Mariano de Oliveira. Lembramentos de quem encontrou endereço na internet que mantém viva a figura desses profissionais, chamado familiaache.blogspot.com. 
 
Quando contei ao dr. Raya que seu paciente dera sozinho os primeiros passos, ele realmente se emocionou, e perguntou se havíamos comemorado o episódio. Disse que o momento em que a criança deixa de se apoiar, equilibra-se e caminha sozinha era fundamental, marcante, importante e merecia festas e celebrações. Que ela ganhava autonomia, independência, que passava com o gesto, à classe do homo erectus. Ele era assim, bravo, enérgico, sem muitas papas na língua, cheio de poesia e muito amor pela humanidade. 
 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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