A onda nostálgica surpreende. Começa com a descoberta no fundo do armário do vestido de decote bordado, cintura fina um dia enlaçada por braços másculos, jovens e fortes. Aumenta com as lembranças evocadas pelo terno antigo de calças de boca afunilada com paletó curtinho de único botão na altura da barriga, lapela estreita que ainda conserva a mancha de um certo batom vermelho.
Intensifica-se à visão do desconfortável par de sapatos de bico fino, salto agulha, forrado de cetim, enrolado em papel de seda e guardado nas caixas que ficam nas últimas prateleiras do guarda-roupa. Ganha corpo com o brilho do strass nos brincos iguais ao colar e à pulseira. Avalanche de lembranças, provocadas por sensações intensadas pelo som da big band reproduzida no rádio, que surpreende com os acordes iniciais da clássica e inesquecível Moonligth Serenade.
Fecho os olhos, as ora doces ora amargas recordações vêm a galope, acompanhadas do arrependimento de não ter realizado o que a vontade ou o desejo exigiam naquela ocasião, naquela situação, naquele momento que passou e não volta mais. Ou bate fundo o prazer de ter agido fora dos padrões algumas vezes — que é quando acho razoável, e até baixo, o preço pago por algumas loucuras cometidas na juventude. Momentos ímpares, pura invasão de emoções.
Ousadia, lamento por quem só cumpriu a expectativa do comportamento alheio, que não se permitiu viver com intensidade e sequer única vez infringiu o regulamento ditado pela extensa cartilha dos Não-pode e Não-deve que, talvez, hoje avalie como grotesca e desumana. Alegro-me pelos que agiram por leis e preceitos, respeitando-se de tal forma que nunca se contrariaram profundamente. Devem ter prazer em recordar porque não sentem o desagradável gosto amargo do arrependimento. Provável que lamentem pela multidão atrás deles, formada por observadores que não entendem como pode ter dado certo na vida alguém fora do convencional.
Há quem não perca oportunidade de resgatar o passado. Há quem vá até lá em busca das boas recordações. Há quem sonhe em viver novamente, na intenção de completar no presente, tarefas inconclusas do passado, esquecendo-se de que as circunstâncias não são as mesmas. Nem eles. Passado é como pedra lapidada e acabada. O que se pode fazer é trazê-la aqui, agora, para apreciar, tocar, e devolvê-la porque lugar de passado é no passado. A palavra que o designa sugere tal movimento de já passou, já foi, como as águas de um rio. E quem se banha duas vezes nelas? Não somos mais os mesmos. O que foi, não volta mais. E não adianta ir lá em busca de sonho perdido. É ter novos sonhos e, aplicando-se a lição aprendida, não hesitar mais em vivê-los com a maior intensidade possível. Um minuto mal aproveitado se torna um século, quando desperdiçado.
A onda foi devastadora, deixou escombros, destruição e certa agonia, mas até tsunamis têm seu fim. A Esperança, no fundo da caixa, agora se liberta. Com ela, bons alvitres. A neta adolescente precisa de paciência, tolerância e bom humor; a xará da bisavó tão logo chegue, pedirá para dividir lembranças com ela. A mais perspicaz logo irá notar — e querer — a novidade brilhante pendurada na pulseira.
O calor do sorriso da menor, que faria derreter o gelo do Alasca, queima o toco atrás do qual a avó se escondeu por algum tempo. O rosto do neto mais velho surge no vídeo, pergunta se demorará muito para ela chegar, e o do caçula enche a tela com seu sorriso: não fala ainda, mas reconhece, e do seu modo saúda, a barulhenta pessoa que o chama de Zé, porquanto seu nome seja outro. Se o passado está pronto, o futuro, em parte previsível, está por viver.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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