Histórias


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História um. O mineirinho pôs a amada na garupa do cavalo, foram à igreja contratar o casamento. O padre, ocupado com a quermesse, disse: ‘Tragam o atestado de primeira comunhão, batizado e curso de noivos!’. Providenciaram e voltaram. O padre, às voltas com o casamento da filha do fazendeirão, se descartou: ‘Faltam prova de solteirice, antecedentes, certificado de casamento dos pais.’ Bravos, os noivos se foram. Voltaram. O padre, impaciente por causa do batizado do neto da contribuinte maior da igreja, pediu mais papéis: fotos dos padrinhos, do vestido da noiva, da daminha e do buquê. Aí o mineirinho, soltou fogo pelas ventas, e disse: ‘Sêo Padre, pensa bem se acabou, porque domingo que vem, com papel ou sem papel, nóis começa!’. Temendo ser responsável pelo pecado alheio, o padre marcou o casamento. 
 
História dois. Célio era casado, três filhos, endereço simples em bairro popular. Suava para pagar as prestações da casa própria. Exímio cozinheiro, tinha mão para qualquer receita e grande sonho: montar padaria onde ofereceria biscoitos, bolos, bolinhos e pães caseiros, sua especialidade. Começaria pequeno no fundo do quintal, com biscoitinhos de polvilho, temperados. Dizem, deliciosos. A família ajudava. Os filhos cuidavam do empacotamento e a mulher, da distribuição e da vigilância pela qualidade e higiene da produção. Estavam empolgados, felizes com o resultado, embora só trabalhassem no final de semana, ocupados que estavam com atividades fora de casa, nos outros dias chamados úteis. Coisa de vizinho invejoso, ou até mesmo de parente idem, sabe como é. Um dia chegou fiscalização que exigiu luvas, toucas e máscaras para todos. Cumpriram as ordens, eram razoáveis. Dias depois, os fiscais retornaram. Queriam gradinha de tela nas janelas. Estavam crescendo, acreditavam na prosperidade. Suspenderam a produção daquela semana, fizeram-se de pedreiros e empenharam-se em colocar as tais grades. Trabalharam dobrado, não tiveram prejuízo. Pois não é que dias mais tarde os homens voltaram e, ao verem suas ordens cumpridas, como não tinham do que reclamar, mostraram a que vieram, de fato. Pediam valor extra, sabe como é, e assim fechariam os olhos para futuras irregularidades, de forma que Célio pudesse trabalhar sossegado, protegido por eles. Célio não era, mas exibia paciência e tolerância de italiano bravo e saiu com eles no berro. Encerrou a produção, abortou o sonho da padaria, foi embora daquela cidade. Não olhou para trás quando mudou. 
 
História três. O rapaz descobriu que podia lavar carros e fazer disso profissão. Lavar, polir, deixar nos trinques as viaturas alheias. Tinha água farta onde morava, descobriu, e não dependeria da água canalizada da rua. Naquela época de seca e racionamento, não tomaria o quinhão de ninguém. Espalhou propaganda na vizinhança e, solícito, alegre, animado, começou a mostrar bom serviço. Vivia ocupado, empregou gente e tornou-se difícil arranjar tempo para atender todos que o procuravam. Prosperou. Como aconteceu com Célio, o dos pães, foi procurado por autoridades que começaram a exigir papéis e maior proteção para os funcionários. Os papéis foram exibidos, tudo em ordem. Os funcionários botaram máscaras e luvas: reclamavam daquelas frivolidades, mas estavam satisfeitos, melhor cumprir as ordens. Os fiscais voltaram: cadê o alvará? Mostraram. No dia seguinte, surpresa: alvará cassado. Percebeu-se, a única forma de salvar o negócio seria propinar — rotina antiga brasileira, tão em moda atualmente. Recusaram-se. 
Fecharam as portas. Ao sair, deixaram escrito à porta: ‘Já que não podemos trabalhar, vamos roubar.’ Ainda bem, era apenas escrito de frustração. 
 
O padre, por temor da co-participação no pecado dos noivinhos, redimiu-se. Nas outras duas, quem é que indeniza sonhos desfeitos e frustrações?
 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comercioafranca.com.br
 
 

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