Governos delirantes


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“Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranoico com o delírio das grandezas”

Fernando Pessoa, escritor português
 
 
Adolf Hitler, o monstruoso ditador alemão que levou o mundo ao mais sangrento conflito de todos os tempos, morreu no bunker onde se refugiava há meses na tarde de 30 de abril de 1945. Hitler e sua mulher, Eva Braun, suicidaram-se cerca de 40 horas depois de oficializarem sua união. A última refeição foi um spaghetti e salada. A guerra na Europa estava em seus instantes finais.
 
Hitler passou cerca de 100 dias refugiado no bunker. Foi em meados de janeiro que ele se mudou para aquele que seria seu último endereço. Àquela altura, a França tinha sido libertada, os britânicos e americanos, ajudados por soldados de inúmeras nações, avançavam na frente ocidental rumo a Berlim e, do outro lado, tropas soviéticas faziam o mesmo na frente oriental. A derrota alemã era questão de tempo. 
 
Ainda assim, Hitler delirava. Como não ouvia ninguém, semanas se sucederam com o füher movimentando nos mapas milhares de soldados que só existiam em seus devaneios. Ele preparava o reforço de divisões que já tinham sido dizimadas, ordenava contra-ataques de esquadrões que haviam sido abatidos há tempos, planejava o deslocamento de colunas de tanques que eram sucata.
 
No dia 20 de abril - quando a capital alemã não tinha mais água, eletricidade, mantimentos, trem, ônibus e nem mesmo uma única rua que não tivesse sido bombardeada - o ditador alemão ainda participou de uma recepção na Chancelaria, a poucos metros do bunker, em comemoração ao seu 58º aniversário. Houve champagne, muita comida, música e até planos para o futuro. 
 
Foi só dois dias depois, em 22 de abril - quando os disparos já atingiam as cercanias do bunker e as tropas soviéticas estavam a apenas algumas centenas de metros de distância - que pela primeira vez Adolf Hitler admitiu, furioso, que a derrota era inevitável. A partir daí, restou se casar com Eva Braun, ditar seus testamentos político e pessoal e, no dia 30, suicidar-se. 
 
Me lembrei destes acontecimentos quando, nesta última semana, fui surpreendido com uma patética propaganda da prefeitura de Franca nas emissoras de TV e nas redes sociais. No comercial, o governo Alexandre Ferreira “comemora” aquilo que define como “o maior investimento em Saúde da história de Franca”. Poucas vezes a publicidade brasileira viu tanta mentira concentrada em tão pouco tempo. 
 
Nos 30 segundos que seguramente consumiram dezenas de milhares de reais para serem produzidos e veiculados, a prefeitura diz que está “sempre contratando novos profissionais”, como se diversos concursos públicos ao longo dos últimos anos não tivessem fracassado. O atendimento acabou terceirizado, o que já foi denunciado como ilegal pelo Ministério Público do Trabalho e é objeto de ações na Justiça. 
 
A situação é tão delicada que, depois de amargar um atraso de mais de dois anos, a UPA do Aeroporto foi inaugurada com menos da metade dos profissionais previstos. Tem 87, ante os 194 necessários. Obviamente, o deficit tem gerado inúmeras reclamações. Há relatos de pessoas que têm esperado até sete horas na fila para serem atendidas. No PS “Álvaro Azzuz”, o drama é similar. Há pouco mais de dez dias um rapaz, cansado de esperar pelo atendimento do filho, perdeu a cabeça e arremessou uma cadeira contra guardas civis que faziam a segurança do local. As imagens da confusão são autoexplicativas do tipo de “qualidade” oferecida pela prefeitura de Franca.
 
De volta ao comercial, em cenários assépticos e com médicos trajando jalecos de um branco tão imaculado que parecem até saídos de uma propaganda de OMO, gente risonha se multiplica enquanto o narrador afirma que “saúde assim não tem preço”. Não tem mesmo, a julgar pela indústria de horas-extras fraudadas na área de Saúde, denunciada pelo Ministério Público Federal e Estadual e que resultou num TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), firmado no ano passado, e cujos detalhes de cumprimento ainda são desconhecidos. Mesmo depois do TAC, foram flagrados pagamentos mensais que ultrapassam os R$ 80 mil para alguns profissionais. 
 
O narrador segue dizendo que “quando a gente faz as coisas de coração, o resultado aparece”. Chega a ser desrespeitoso veicular uma fala dessas uma semana depois da morte de Eduarda Segismundo, de apenas 14 anos, vítima de uma sequência absurda de falhas no atendimento do PS “Dr. Álvaro Azzuz”. Só depois de receber três diagnósticos distintos em três dias sucessivos é que ela foi transferida para a Santa Casa. Eduarda morreu nos braços do pai, dentro do hospital, enquanto se preparava para começar o tratamento.
 
O Brasil não é a Alemanha, Franca não é Berlim e tampouco Alexandre Ferreira é Adolf Hitler. Mas as lições da história estão aí. Ignorar a realidade é uma péssima alternativa para qualquer situação. Se existe um problema, há que se enfrentá-lo. Se o sistema não funciona, alguém tem que assumir a responsabilidade. Se acontecem falhas, ainda mais quando resultam em mortes, quem lidera tem que se desculpar com as vítimas e oferecer a ajuda possível. Fazer comercial para tentar dourar a pílula é inócuo. Basta olhar nas áreas de comentários dos posts da própria prefeitura nas redes sociais para ver a quantas anda o humor das pessoas. A insatisfação é ampla e aguda. O “maravilhoso” governo Alexandre Ferreira só existe na cabeça do próprio e de seus asseclas mais próximos. Para o resto da população, é página - triste - virada. E ponto final. 
 
 
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN 
email - jrneves@comerciodafranca.com.br

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