Espremida e oprimida entre mudanças sociais profundas, a minha foi geração que presenciou, viveu e sobreviveu ao antes e ao depois da nova concepção e formato feminista. Roupas, que drama há nelas? Pois é. No começo do século passado as mulheres abandonaram a crinolina, vestiram saias mais curtas, mais confortáveis e passaram a usar calças compridas. As pernas de fora deixaram de ser tema de fotos pornográficas e ganharam as ruas. No meio do século saias subiram vertiginosamente e olha a gente imitando Mary Quant e suas pupilas inglesas. Sobe saia, desce saia, adotamos quase cem anos depois da primeira ascensão de suas barras, o short curtinho que apenas jovens deveriam usar e ainda assim em momentos casuais, e que hoje virou uniforme para quase todas as ocasiões.
Pílulas anticoncepcionais, outro assunto polêmico. Minha geração viveu sob o culto da virgindade e da valorização da ausência de sexo antes do casamento. Época de namoros longos, geralmente o relacionamento começava nos anos do primeiro grau, acompanhava o segundo grau e terminava — bem ou mal — depois do terceiro. Terminava bem, quando o casal se casava, embora muitos daqueles casamentos tenham se desfeito ao longo dos anos seguintes; terminavam mal quando cansados um do outro, um ou outro arranjavam outra ou outro. Mas, os que superaram, se mantiveram, e hoje ultrapassam incríveis aniversários de trinta, quarenta, cinquenta anos de união conjugal. A pílula anticoncepcional ajudou muito na sobrevivência daqueles namoros longos embora a maioria das moças — hoje senhoras de cabelos brancos — jure ter se mantido virgem até à consumação da noite de núpcias. Particularmente não acredito muito, mas se elas juram, não serei eu a duvidar.
Minha geração se caracterizou pela emancipação feminina no que diz respeito ao trabalho fora de casa. Muitas de nós formos criadas por pais mais abertos e progressistas que nos estimularam a estudar, ter diploma, profissão, dividir as tarefas do lar e as responsabilidades da educação dos filhos com os maridos. Aí aprendemos a dividir os filhos com seus avós ou com profissionais. Não sei bem se isso foi um grande bem ou um grande mal. Se de um lado nos emancipamos e ganhamos espaços, de outro perdemos as rédeas com nossos filhos e, muito triste, relegamos às escolas a tarefa de educar. Antes era claro que a escola ensinava e os pais educavam. Ficou tudo meio confuso. Talvez as novas gerações possam consertar essa barafunda.
Que vontade de dizer às grandes mulheres que tomaram as rédeas das novas sociedades — entre elas gente do meu sangue — que o modo de vida feminino atual é maravilhoso mas que há de haver equilíbrio entre o mundo lá fora e o mundo cá dentro. Que a prioridade é, em grande parte, a satisfação pessoal, verdade, mas que filho não pediu para nascer. Filho é opção nossa, dos pais. Trabalho é muito importante, nossa contribuição é relevante, fundamental, mas que no fim o que prevalece mesmo é a harmonia e a certeza de que nossos descendentes terão segurança nas suas escolhas e determinação nas suas prioridades. Que serão felizes, adaptados, inteiros e que nos olharão dentro dos olhos e nós dentro dos deles. Dizem, é alarmante, que hoje os filhos adultos são mimados, têm pais negligenciados, e que isso é efeito colateral de uma educação sem limites.
Talvez não tenhamos dito não o suficiente. Pode ser que tenhamos achado que dar parâmetros é acreditar que filhos pequenos tivessem poder de decisão como se fossem adultos em miniatura. Será que os pais de adolescentes realmente acreditam que seus filhos um dia tirarão os olhos das telas dos seus maravilhosos aparelhos de comunicação e os encararão para dar opinião consistente, fundamentada e peersonalíssima? Ou tudo isso é caretice minha?
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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