Profundo desânimo impede meu pensamento de sair à procura de palavras que possam traduzir o que me vai na alma, hoje. Absolutamente sem inspiração, quedo-me a pensar na vida. Devo estar mesmo mal, concluo. Quando usaria tal verbo, quedar, tão pernóstico, bom para poesia, para o bolero, jamais para a prosa?
Penso no que o rapaz das verduras me contou. Talvez seja um bom mote. Disse que a nora entra pomposamente pela porta da frente, passa pelos familiares do marido, mal os cumprimenta, vai direto para a sala de televisão, e fica mexendo nessa porcaria — ele quase solta um palavrão — cuidando da vida dos outros. Por que não cuida da vida dela? Por que não conversa conosco? Sem condição de responder pela mal educada familiar, pelo desconhecimento das causas que a teriam levado a ser tão indiferente, quedo-me a pensar no que ele disse além da tristeza pela atitude da moça. Ele tem razão. As redes sociais, que felizmente ainda conservam seu lado positivo, atualmente estão mais usadas para exibir, expor, ostentar e alardear banalidades como o que se fez com o cabelo, o objeto caro que se comprou, o novo móvel da casa e, deselegância pura, o que se vai comer no restaurante ou em casa. O curioso é que quando a cozinheira ou cozinheiro, mesmo que ocasionais, exibem o belo prato recém feito, é até elegante. Lado positivo das redes? Viabilidade de troca de mensagens de forma rápida, correspondência afetiva, publicação de fotos bonitas, contato virtual com pessoas que estão longe ou que estão perto porém distantes pelos afazeres do cotidiano, notícias, a popularização de poetas, escritores consagrados e oportunidade de revelação ou descoberta de outros poetas e escritores. Coisas do gênero.
Penso no que o rapaz da academia comentou. Que gostaria de descobrir sua alma gêmea, ter companheira para a vida. Que está na idade de se casar, que a mãe o cobra, que tem profissão, é bem bonitão, posso afirmar. Que emperra na hora em que conversa com as moças. Começa que elas estão ávidas para subir no altar, realizar o sonho do véu e grinalda. Não têm projeto de vida, grudam feito cola nele, querem saber de tudo que ele faz, não se mostram interessadas em outra coisa que não seja o umbigo delas ou a possibilidade de fisgá-lo. Fiquei confusa. De repente não sabia se tinha voltado ao começo do século, bem antes da mulher queimar o primeiro sutiã ou reivindicar direito de voto.
Pensei no que minha amiga me disse enquanto tomávamos café, com as mãos segurando a cabeça, num desalento só. Que está desanimada, triste, que não reconhece mais seu país. Que perdeu o ânimo de ler jornais ou ouvir informações políticas. Que as notícias de corrupção se tornaram banais, que os jornalistas agora falam delas com tanta naturalidade que nem arregalam mais os olhos. Que as brigas entre os poderosos de Brasília a enojam. Que não vê quiasquer perspectivas de melhora.
Pensei no que o amigo médico contou. Que seu jovem paciente cardiopata foi ao consultório com a mãe apavorada porque ele estava usando anabolizantes contra-indicados para seu estado de saúde. Questionado pelo profissional, o rapaz revidou com um ‘vá se fu...’ contrariadíssimo.
Pensei na jovem mãe que recebeu amiguinhas da filha em casa para passar o dia. Conta que nenhuma outra mãe entrou junto, nem desceu do carro para deixar a criança. Que nenhuma criança a cumprimentou ao chegar. Que nenhuma se despediu ou agradeceu quando foi embora. Que ficou preocupada porque nem viu quando as crianças saíram, porque elas falaram direto dos seus iphones com as mães. Crianças de menos de dez anos.
É. Mote, tem. O que falta é mesmo ânimo.
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