Perguntas


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Lembra quando seu pai olhava para você logo após a má criação, a indelicadeza cometida com seus semelhantes ou depois da mais simples desobediência? Você recebia aquele olhar organizador que tratava de pôr as coisas no seu devido lugar e que gelava seus ossos de sincero arrependimento. Lembra que, se a falta ultrapassava os limites, você era colocado de castigo sentado no banquinho que geralmente ficava exposto no mesmo canto por semanas, até meses, como evocação muda de local de punição exemplar? Você sairia de lá, mas era olhar o banquinho que a vontade de praticar alguma contravenção descia pelos calcanhares e se perdia no chão. Repressivo? Nem tanto. Repressivos eram a palmada na bunda, o puxão de orelhas. Que funcionavam, já que quase nada era excessivo ou, convenhamos, injusto. 
 
Por aquela época os pais tinham obrigação de educar seus filhos, impor limites para que crescessem sadios. E educar significava torcer o pepino desde cedo. Tínhamos obrigações: fazer a cama, guardar roupas, livros e objetos nos seus devidos lugares. Preparávamos a mesa para as refeições. Ao nos sentarmos, deixávamos os mais velhos nos servirem. Sabíamos a utilidade do garfo, da faca e jamais recusávamos experimentar qualquer alimento, pois só tínhamos direito de não gostar deles depois de degustá-los. E tínhamos que justificar a ojeriza, que nossos pais não aceitavam respostas simplistas como porque sim, ou porque não. Encher o prato de comida e não deixá-lo vazio dava BO. Quando vinha reclamação da escola era difícil. A falta mais grave era responder à professora, seguida de mostras de falta de educação com quem quer que fosse, bagunça na classe, adesão aos maus feitos dos grupos. Ser pego rabiscando carteira? Não fazer as lições? Ir pra escola sem uniforme completo? Faltas muito graves, gravíssimas. Perdíam
os liberdade e direitos, bem como nos era tirado, pelo menos temporariamente, alguma coisa material da qual gostávamos muito. 
 
Não existia o hábito de frequentar restaurantes. Uma vez na vida outra na morte os pais levavam os filhos para jantar fora. Tinha formação para entrar: o pai, a mãe, os filhos em seguida. O pai puxava a cadeira para a mãe sentar e o melhor lugar era dela; os meninos esperavam a determinação dos seus lugares. Sentávamos e esperávamos. Previamente se combinara pratos e quantos refrigerantes seriam pedidos. Não existia perdularismo ou esbanjamento. Não se desperdiçava um grão de arroz, nenhum copo se deixava cheio. Ninguém ousava sair da mesa alegando chatice, cansaço ou monotonia. Naquele tempo ninguém era obrigado a aguentar algazarra ou falta de educação nem dos próprios, quanto mais dos filhos dos outros. 
 
Eram ensinadas - e cobradas - atitudes civilizadas como cumprimentar os donos de casa, quando se chegava à casa de reis ou súditos, de generais ou soldados rasos. Palavras de agradecimento, desculpas, pedidos de permissão eram usadas com frequência e não se considerava ridículo despedir das pessoas e agradecer o convite para entrar nas suas casas. Nenhum adulto se calava para ouvir qualquer intromissão infantil nas suas conversas. Cumprimentar o desconhecido, ou simplesmente reconhecer sua presença, era obrigação. Pequenas grandes atitudes de cortesia no trato com os semelhantes. Sinto falta delas. 
 
As novas gerações são muito mais espertas e, de certa forma, mais inteligentes que as antigas, continuamente testadas diante de conflitos e oportunidades de aprendizagem. Cresceram enfrentando situações que exigem agilidade de espírito, habilidade na resolução de problemas e na argumentação. Cresceram diante da tecnologia. Em que ponto da moderna trajetória humana passou a ser ridículo reconhecer a presença dos semelhantes? Quando se derrubou a convenção de que há limites e obrigações na convivência humana? Quando educação virou sinônimo de repressão? Quando humanizar se confundiu com domesticar?
 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
professora, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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