Tigres


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‘Numa cidade distante, que ficava dentro da floresta, existia um enorme tigre, ameaça constante tanto aos moradores, quanto aos animais.’ A história, que começaria mais ou menos assim, foi levada à sala de aula e, compartilhada, tornou-se tema de bons momentos de reflexão para todos, alunos e professora. O tal tigre da história ainda mata muitas pessoas, algumas até incautas que, embora cientes do perigo que ele representava, chegavam muito perto ou o fustigavam. Prenderam-no em cela especial e era vigiado constantemente por guardas. Nem isso evitaria vários incidentes tristes. A verdade é que, durante toda a noite, todos os dias, todos os anos, o tigre roncava alto, assustava as pessoas, que se sentiam ameaçadas por ele. Um dia a população aprendeu a conviver com ele. Ao reconhecer sua existência, passou a tomar precauções e cuidados com a segurança, com a abordagem. Não brincavam com o tigre, não o enfrentavam diretamente, mantinham distância dele e entendiam que a simples eliminação do animal não seria suficiente nem para neutralizar suas ações, nem evitar as irreversíveis. 
 
Aprendi. Percebi, naquela época, o tigre idealizado que morava na minha mente que significava perigo, insensatez e misturava ameaça, medo, fascínio, insegurança e desejo de, ao enfrentá-lo e domá-lo, tornar-me heroína dos mundos, maior e melhor que Anita Garibaldi, de apenas dois. Além disso, como é antiga, imagino que esta história do tigre contada assim, possa ter sido o berço da prudente observação de que não se deve cutucar nem tigre, nem onça, com vara, mormente se a vara for curta. 
 
Tal lição aprendida - e nem sou tão fã de bichos assim - recebo outra, recentemente, também proporcionada por felídeos. No Brasil, uma criança, acompanhada por pai irresponsável, visitava o zoológico e brincava de colocar e tirar o braço dentro da jaula de bicho feroz. O pai se mostrava encantado e orgulhoso com as peripécias do seu audaz pimpolho, as pessoas ao redor acompanhavam meio extasiadas, talvez horrorizadas, aquele balé macabro. De repente o animal, provocado e nervoso, dá o bote e arranca o braço do menino. Reação do pai: matar o bicho. Reação das pessoas: expressões de horror, mão na boca para abafar gritos. Lições. 
 
A atitude dos filhos é regida pela batuta dos pais. A segurança dos filhos é determinada pela firmeza dos pais - incluindo aí horários de dormir; de brincar com computador; poder ir, poder ficar; podes, não podes. Quem posa de espectador é cúmplice do espetáculo. Todos somos responsáveis pelo que acontece no entorno. Depois do leite derramado, mesmo que seja de onça ou tigresa, não adianta arranjar culpados. Isso é apaziguar coração cheio de culpa. 
 
A entrada do terceiro na lista de lições tigresas foi bizarra. Em alguns países, consertos ou reparos de bens e utilitários domésticos saem caro, muito caro. Assim convencionou-se colocar na porta das casas o que ainda possa interessar ou ser aproveitado por alguém. Entram no rol móveis, computadores, eletrodomésticos, enfeites, cortinas, colchões, etc. 
 
Dias atrás, num bairro de Londres, alguém decidiu descartar um tigre imenso, em tamanho natural, provável decoração ou lembrança. Colocou o tigre deitado no canteiro da calçada. De longe se via o animal, absurdo contraste com o cenário. Os moradores que saíam para o trabalho ou levar filhos à escola, se aglomeraram para confabular. Percebendo a imobilidade do tigre, acalmaram-se e riram bastante. Quem jamais se falara, encontrou motivo de conversa. Aquele segundo entre o momento da descoberta e anúncio do bicho e a reação de tranquilidade das pessoas marcara o instante do nascimento de muitas amizades. Lições? Muitas. Nem tudo que parece existir, existe. De longe tudo é mais ameaçador. Pôr o tigre que existe dentro de você para fora, pode mudar a vida dos outros. Ou a sua.
 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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