Tempos atrás conhecemos um servente de pedreiro que tinha orgulho de dizer que foi um dos precursores da chamada “feira do rolo” da Vila São Sebastião. Em sua simplicidade, nunca imaginou que aquele espaço, inicialmente criado para a sobrevivência de pessoas que traziam de suas casas, ou da “roça”, produção de pequenas hortas e pomares, galinhas, ovos, além de produtos e mercadorias geralmente não utilizadas, alternativas para quebrar a corrente do abandono estatal, seria desvirtuada com o passar dos anos. A “feira do rolo” cresceu, passando a oferecer mercadorias usadas e novas, fugindo de qualquer controle. Tornou-se ambiente de extrema pobreza, integrada por pessoas que vivem à margem da sociedade, lugar propício e fértil à proliferação da criminalidade.
Assim, seus iniciantes nunca imaginaram que a feira passaria a envolver muito mais do que o livre comércio de quinquilharias e bugigangas. Por trás do comércio, hoje, há um complexo sistema codificado que expressa muito mais que sonhos e necessidades impostas por vários fatores, principalmente pelas limitadas possibilidades advindas da cruel realidade que são obrigadas a enfrentar para sobreviver. Em síntese, aquele evento se modificou de espaço sobrevivência a entreposto do crime.
É comentário comum que se alguém teve um objeto roubado ou furtado, que vá à ‘feira do rolo’ que provavelmente o verá, lá, sendo comercializado. Assim é que cidadãos iguais àqueles primeiros, que ali se encontram em busca de sobrevivência, se veem misturados nos universos ambíguos que lá se prolifera. Há mais: até por questão da manutenção da atividade, muitos se recolhem na prudência do silêncio. E rápido resumo, não é mais que pessoas e famílias se esforçando por conseguir ascensão social enquanto tantos outros se afundam na ilusão do ganho inicial fácil da marginalidade. Pode não terminar bem...
ESTADO PARALELO: Abordamos em outras oportunidades a questão da perda de controle do Estado em relação à segurança. Semana passada, em Ribeirão Preto, o comércio e quatro escolas municipais no bairro Adelino Simioni, zona norte da cidade, permaneceram fechadas. Apesar das negativas das autoridades, os moradores e comerciantes informaram que um grupo de seis criminosos atearam fogo a um ônibus e determinaram um “toque de recolher” na região. Estabelecimentos comerciais foram fechados, postos de serviços públicos não atendiam e escolas ligaram para que pais e responsáveis buscassem seus filhos. Ontem se informou que no Rio de Janeiro, em suposta gravação, o traficante Playboy pedia a comparsas que redobrassem a segurança no Morro da Coroa, em Santa Teresa, para evitar nvasão de bando rival. No áudio, solicita que os colegas usem pistola e granada para garantir a predominância da facção na comunidade. Também se divulgou vídeo mostrando policiais “encurralados” em favela.
Será que temos que aceitar tais fatos como corriqueiros e comuns? Que Estado é esse que aceita passivamente a dominação de facções criminosas que impõem toque de recolher quando um de seus membros é preso ou morto em confronto com a polícia? As autoridades precisam reagir urgentemente. Bandido é que tem que ter medo das instituições do Estado. Não o contrário!
A SABATINA DE FACHIN: Esta semana promete ser movimentada no Senado da República. Inicia-se com a sabatina do advogado Luiz Edson Fachin, indicado pela presidente Dilma para ocupar vaga deixada pelo ex-ministro Joaquim Barbosa. O principal é saber se ele, aprovado como ministro do STF, manterá suas linhas de pensamento acima dos dispositivos constitucionais positivados. Toda a responsabilidade será dos senadores, inclusive daqueles que, quando governadores, o nomearam. Vamos ficar de olho!
Toninho Menezes
advogado, professor universitário - toninhomenezes@netsite.com.br
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