Ao nascer, encontrei família de gente que trabalhava. O avô paterno era barbeiro. Membro de família de imigrantes pobres que não falavam a língua do país que os acolhera e que, dizem, teriam fugido da Companhia, no sul da Itália, por questões familiares. Vovô, que pouquíssimo frequentou escola, aprendeu a profissão, cortou cabelo e barba de muitos honrosos nomes antigos, que hoje denominam logradouros da cidade. Ele mesmo se tornou nome de rua. Vovó Lila, sua esposa, teve nove filhos, dos quais duas exigiam muito desvelo e cuidado, pois sobreviventes da poliomielite. Nunca estudou. O outro avô, materno, era mecânico. Vivia com as mãos sujas de graxa, que era com o que besuntava os motores que consertava, na oficina da Ford. Vovó Ritinha, sua esposa, que teve oportunidade de estudar como suas irmãs, não o fez porque era mimada demais: filha caçula, criada sem mãe que morrera no parto. O pai, dizia ela, sentenciara tão logo ela demonstrou preguiça para ir à escola: mulher não precisa mesmo de estudo. Embora risse toda vez que contava isso, por diversas vezes eu a peguei com certa tristeza no olhar. Virou costureira. E ficou famosa.
Meu pai, quando solteiro, aprendeu a profissão do pai e foi muito tempo coadjuvante no salão de barbeiro dele. Excelente localização, freguesia de celebridades locais, ia bem tocando a vida, pelo menos até se casar com minha mãe que também não havia estudado porque o pai a tirou da escola, ao saber do namoro dela, que ele achava precoce. Quando teve oportunidade, encostou meu pai na parede: duas filhas, queria futuro bem melhor para elas e para os outros filhos que viriam. O salão não era dele, sustentava outras famílias e ela sonhava alto. Propôs: um de nós deve voltar para a escola, formar, ter diploma e garantir emprego melhor. Ele passou a trabalhar no Banco do Brasil como contínuo, estudava enquanto minha mãe costurava, bordava, fazia artesanato, balas, cocadas, docinhos, bolos, caminhos de mesa, crochê, punha numa mala que não tinha rodinha, e saía oferecendo seus produtos de porta em porta. Fora os bolos artísticos que confeitava.
Dizia, meu pai se tornou contínuo do banco. Contínuo era aquele funcionário que servia café, limpava a cozinha, limpava o chão, higienizava os banheiros, recolhia lixo. Ele fazia isso e se sentia digno e valoroso. Com o tempo prestou concurso, formou-se, entrou na faculdade, foi promovido, mas o gerente nordestino do BB da época, sêo Orlando, nunca o reconheceu mais graduado. Volta e meia o chamava para fazer faxina na casa dele, que ficava no andar de cima do banco, pois d. Mocinha a esposa, havia ficado sem empregada. Enquanto minha mãe bufava, ele ia, sem reclamar e sem precisar mais disso. Dizia que não lhe custava nada e que a atitude arrogante do importuno chefe se voltaria contra ele mesmo, quando percebesse a pequenez do ato que pretendia humilhar um subalterno.
Comecei a trabalhar antes dos catorze anos. Casei-me com homem que levantava cedo, chegava antes que seus funcionários na fábrica e que vi desesperar muitas vezes, quando as vendas caíam, comprometiam a produção e ele andava pela casa feito sonâmbulo a procurar alternativas para não dispensar seus operários.
Foi com exemplos que aprendi sobre trabalho. Que o trabalho dignifica. Que qualquer trabalho enobrece. Que não se deve dar o peixe. Que a maior dor de um cidadão é perder o emprego. Que, se o cidadão tem vergonha, receber esmola avilta seu orgulho. Que a pessoa tem que ter liberdade para decidir sua atividade profissional. Que devemos pagar impostos. Que parte do montante alcançado através dessas contribuições deve ser aplicado para promover maior bem-estar social. A outra parte da arrecadação, revertida em outros benefícios: escolas, hospitais, estradas. Aprendi assim. E ensinei assim para meus filhos.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.b
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