Fuzis, explosão e solidariedade


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“É graça divina começar bem. Graça maior persistir na caminhada certa. Mas graça das graças é não desistir nunca”

Dom Hélder Câmara, arcebispo brasileiro
 
 
Telefone que toca de madrugada quase nunca traz notícia boa. Se o som ecoa em casa de jornalista, a possibilidade de que não esteja acontecendo um problema, e dos grandes, é praticamente nula. Exatamente por isso, senti um arrepio quando minha mulher avisou que meu celular tocava no início da madrugada da última terça-feira, feriado de Tiradentes. No visor, “Dulce Xavier”, diretora administrativa do GCN. “Junior, um bando invadiu o jornal. Explodiram o caixa eletrônico. A polícia foi avisada mas ainda não chegou. Pode ser que os bandidos ainda estejam no prédio. Estou indo para lá”, disse, insistindo para que eu esperasse em casa, especialmente porque jornalismo sério sempre alimenta o fantasma de um atentado patrocinado por quem sonha em nos calar. Obviamente, o apelo era recomendação impossível de ser acolhida. 
 
O histórico do celular permite checar o instante preciso da ligação: 1h29. Descobriríamos mais tarde que os bandidos tinham fugido cerca de seis minutos antes. Mas, naquele instante, nossa única preocupação era confirmar se todos os funcionários estavam bem - e a salvo. A explosão fizera o prédio inteiro tremer, o cheiro de pólvora era intenso e a fumaça impossibilitava que os funcionários que permaneciam no prédio conseguissem enxergar o que se passava. Encostei no GCN à 1h39. A Polícia Militar havia chegado um pouco antes e isolado a área. Dulce também já estava lá. Nenhum funcionário fora ferido, o que nos deixou aliviados. Mas o cenário era inacreditável. Tinha-se a impressão que um míssil atingira o prédio.
 
A análise das câmeras de segurança, que capturaram tudo, revelou que a quadrilha agira de forma extremamente organizada - e estava fortemente armada. Os cinco homens encostaram exatamente à 1h13 em frente à entrada principal. Armados com fuzis, muito provavelmente AK-47 (de fabricação russa), foram precisos. Um deles deixou o carro e seguiu rumo à guarita, onde anunciou o assalto ao porteiro e manteve-se todo o tempo “fechando” o perímetro com o fuzil apontado para a avenida. Outro permaneceu no carro, que foi estacionado na rua lateral para não chamar a atenção de quem passasse pela avenida. Três cuidaram de quebrar a porta de vidro com uma marreta. Sabiam exatamente para onde ir. À 1h16, o cofre explodiu. Por volta de 1h21, os bandidos deixavam o prédio. Sumiram.
 
Desde então, as polícias Civil, Militar e Científica trabalham na investigação e caçada aos bandidos. Também desde então, tenho recebido tantas manifestações de apoio, carinho e incentivo que foi impossível não me sensibilizar várias vezes. 
 
A primeira grande emoção experimentei ainda naquela madrugada. Enquanto Dulce Xavier se certificava de que todos os funcionários estavam bem, um grupo de jornalistas já se organizava para começar a produzir o noticiário que estamparia nossas páginas horas depois. Os editores Luciano Tortaro e Sérgio Marques foram cruciais nesta operação, coordenando as equipes para que tivéssemos os registros necessários - tudo enquanto o prédio ainda estava cercado de policiais. Foi bonito ver o coordenador de logística, Marcello Silva, que voltava para casa quando passou em frente do prédio e viu o que acontecia, improvisar e começar a registrar imagens, bem como assistir à chegada do radialista Marcelo Valim, que gravou áudios e vídeos importantes. 
 
Como não ficar grato pelo empenho dos motoristas Kilton Oliveira e Marcelo Oliveira e pelo apoio do gerente de TI, Thiago Comparini, e do responsável pela distribuição, Taymisson Gomes, incansáveis madrugada adentro, ou não fazer coro a Gisele Vieira, gerente de Classificados que, diante da destruição, sentou-se no chão para chorar, inconformada com a violência a que tínhamos sido submetidos?
 
Nas primeiras horas da manhã, os amigos do GCN Leandro Vaz, Edson Arantes, Rodrigo Henrique, Sandra Lima, Denise Silva, Cinthia Pinheiro, Beatriz Avila e Cibele Andrade iriam conferir pessoalmente a destruição, colocando-se à disposição para ajudar no que fosse preciso, no que foram seguidos por dezenas de outros. Colegas de trabalho como Rodneri, Matheus, Rozelena e Donizete, em pleno feriado, foram ajudar a preparar as instalações para que pudéssemos reabrir no dia seguinte. Alguns, impossibilitados de estar fisicamente presentes, fizeram questão de ligar, escrever, manifestar apoio.
 
Milhares de leitores e ouvintes seguiram o mesmo caminho. Até onde foi possível contar, 1962 pessoas curtiram as publicações do fato nas redes sociais; 194 delas compartilharam o conteúdo e mais de 580 deixaram mensagens de solidariedade e incentivo. “A destruição foi apenas material, erga a cabeça e arregace as mangas... ”, aconselhou a advogada Maria Affonso. “Que triste isso! Lamento muito por vcs!”, disse a dermatologista Rita Moscardini. “Que absurdo! Até quando vamos ter que conviver com tanta violência?”, postou a gerente de negócios Malu Fiorese. “Não temos segurança mais”, reclamou Érika Covas. “Que a Justiça seja feita e que esses bandidos paguem por seus crimes”, desejou Ricardo Calefi. “Ainda bem que ninguém se feriu. Estamos com vocês. Força!”, escreveu, da França, onde passa férias com a família, a advogada Lívia Franchini.
 
Li, reli e li de novo cada uma das mensagens que recebemos, quer tenham sido postadas nas redes sociais, quer tenham sido encaminhadas por e-mail ou SMS. São palavras como estas que têm me reconfortado o espírito. É justamente em nome desses valores que nos unem aos leitores e ouvintes que seguiremos, sempre, em frente. Não há cara feia que nos paralise. Não há político ou empresário mau caráter que nos intimide. E, por maior que seja a violência, não há explosão que nos silencie. A vida segue, nossa missão também. Obrigado. E vamos à luta!
 
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN 
email - jrneves@comerciodafranca.com.br

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