Projetos


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Temo levar pito do analista. Certeza. Ele acreditava nos meus ganhos e perdas, como menor, muito menor voracidade - o que seria o lado positivo, e mais, muito mais paciência, através da perda da auto intolerância. Que nada. Foi conseguir dar impulso no projeto da publicação de livro com textos escritos ao longo de mais de vinte anos, que nem foi editado ainda mas já tomou rumo, sobrepus outro ambicioso sonho, desta feita com livro de contos, recheado de histórias que presenciei e de outras que me relataram e autorizaram recontar. Claro, sem aumentar qualquer ponto. 
 
O primeiro já tem corpo, nome e sobrenome. O segundo, só nome: Grandes Amores. Sugestivo, não? A intenção é mostrar histórias de amores e suas formas. Amores que deram certo, que não deram certo. Amores que terminaram, sem nem começar. Amores que explodiram — ou implodiram — os amantes. Alguns que duraram, outros que capengaram ou ainda capengam. Amor de fogo de artifício - aquele que explode, brilha, inebria os sentidos e, quando apaga, só deixa uma vaga sensação de que algo muito bom aconteceu, mas ninguém consegue descrever ou explicar. Tem amor de todo jeito, e todos grandes. Tem amor hetero, bi, homossexual, narcisista, do tipo que faz os amantes crescerem ou definhar feito planta praguejada. Todo mundo tem um caso de grande amor para contar. Da mãe, do pai, do filho, da irmã, do tio solteirão, da tia que nunca se casou, da avó viúva. Ou de si mesmo. Pode acreditar.
 
O desejo de contar essas histórias nasceu numa tarde quando escutava O que tinha de ser, música de Tom Jobim que Elis e Bethânia interpretaram, cada uma a seu modo, e que nunca mais ninguém ousou gravar depois delas. Brinquei que a letra sugeria histórias de amor, Grandes Amores, publiquei no Face e, para minha surpresa, muitos leitores responderam e disseram que gostariam de colaborar. E colaboraram. Vieram histórias de longe, muito longe e de perto, muito perto. Adorei.
 
Sou de família mineira que se sentava em volta do fogão ou na sala de visitas ou na porta de casa, sempre em cadeiras dispostas em círculo, para contar histórias. Às vezes as crianças mais velhas ganhavam permissão para ouvir, nunca para participar. Nem para perguntar algum detalhe que tivesse lhes escapado daquelas saborosas histórias. 
 
Foi assim que soubemos da história da Didinha, por exemplo, uma de minhas favoritas. Começo do século passado, Didinha, a irmã mais velha da família, que aos dezesseis anos viu-se responsável pelos cuidados de oito irmãos mais novos que a mãe deixou ao falecer prematuramente, logo após o nascimento do último. Era adorada. Didinha na fase de velhice quando a conheci, sempre me pareceu alta, imponente, de voz forte e marcante. Cantava lindamente, escrevia poesias. Nunca se casou. Durante uma daquelas rodas, as irmãs mais novas do segundo casamento do pai e as outras, criadas por ela, comentaram que Didinha fora apaixonada por Zoroastro, que lhe retribuía o amor, mas que também era alvo, sem o saber, de sentimentos por parte de parente distante delas, Ismênia. Os amantes trocavam missivas e poesias — até escritas por eles. Todavia, bastou Didinha saber que vivia um amor dividido para nunca mais olhar para ele, ou para outro homem qualquer. Ele também nunca se casou. Dizem, amou-a até a morte. 
 
Verdadeiro relicário, herdei as cartas que trocaram - transcritas com delicada letra em caderno de folhas de papel de seda com marca d’água, as dele antecedidas por um bordadíssimo e cheio de arabescos Z. Volta e meia releio as poesias, imaginando o que teria levado Didinha a desistir daquele grande amor. Emocionada, nessa hora percebo e me convenço que sei onde tirei o gosto por tango e tragédia.
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comercioafranca.com.br
 
 

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