Em 1936 o cinema lançava Poor Little Rich Girl, em português A Pobre Menina Rica, delicioso filme com Shirley Temple, baseado por sua vez no filme mudo The Poor Little Rich Girl de 1917. Não os vi. Nem a peça de teatro de Vinícius de Moraes e Carlos Lira, xará dos dois filmes que não foi retumbante sucesso, mas deixou canções belíssimas da dupla. Tais legados cinematográfico e teatral quase se perderam no tempo, mas a incoerência de se viver na pobreza, embora com alguma posse, que filmes e peça exploraram, continua atual.
Lembrei-me disso enquanto participava da manifestação do 12 de abril. A companheira a meu lado, comentara pouco antes que nós, os participantes, éramos muitos, mas representantes apenas da classe média. Que não havia ninguém das classes ‘C’ e ‘D’ nas imediações. Justamente, responderam-na. Elas recebem benefícios distribuídos pelo governo, arrecadados pelos impostos que nós, da classe média, pagamos. E aí a frase me importunou: ‘pobres meninos ricos’. Pobres nós da classe média que trabalhamos, pagamos, contribuímos e somos punidos, apontados como vilões, ridicularizados pelos políticos e pela mídia partidária.
Lembro-me de amigos que discutiam política conosco, pedindo que os acompanhássemos no raciocínio: estávamos satisfeitos com os governos que tínhamos? Não. E com os rumos da Educação? Não, também. E com o sistema público de saúde? Nem ver. Então, porque deixar de votar em cidadão simples como a gente, que deu duro na vida, lutou contra o regime militar, gritou pelas Diretas Já!, que não teve chance de estudar, mas é graduado nos bancos da vida? Vamos dar chance para ele! Ele fala de ética, de respeito, ele promete decência e dignidade, ele é simples, ele sabe valorizar o ser humano. As mudanças seriam tantas, as promessas eram tão consistentes, que vieram as eleições, votamos nele e ele entrou. Carregou com ele o Sarney, o Collor, o Dirceu, o Renan, o Maluf. Colocou a Dilma na mesma ciranda e o país nunca mais foi o mesmo. Pobre pátria rica...
A riqueza atrai, corrompe quase tanto quanto o poder. Para ser rico dá-se a alma ao demônio. Para ser poderoso, faz-se pacto com ele. O discurso de ética amoleceu, vieram mensalões, petrolões, escândalos, descalabros aos montões. Mestre do discurso, da oratória, do charme no palanque, não teve uma vez sequer que tentasse ou começasse a explicar os descalabros do seu governo ou dos companheiros de partido. Não sei que mágica faz que impede seus acólitos de enxergar nele as evidências de responsabilidade de nefandos atos. Teve assessoria de imprensa capaz de indicá-lo e promovê-lo diretamente a santo, até passando por cima do Papa.
Criticam-nos, nos ridicularizam e nos tornam menores em importância? Acabem com a classe média e digam adeus aos trilhões de impostos que pagamos e tornam possível a distribuição de renda para os pobres. Para cuidar de nossa saúde, buscamos planos particulares; para educarmos nossos filhos, diferentemente do que recebemos, devemos encaminhá-los a escolas também particulares. As empresas todos os dias matam um dragão para sobreviver; o desemprego é ameaça mais e mais palpável. Desencorajar a livre iniciativa, é abrir cova para cair morto nela.
Indecente não é a classe média gritar. Indecente é acompanhar figura como Dias Tóffoli que, depois de ser reprovado seis vezes para a magistratura caiu sentado na cadeira de juiz do Supremo. Indecente é não abrir as contas do BNDES para esclarecer contribuintes; indecente é termos trinta e nove ministérios para acomodar egos e superegos. Dizem, no momento em que a mãe de Shirley Temple era entrevistada no set de filmagem do Poor Little Rich Girl, a garota que tinha cinco anos disse ao repórter: ‘Por que você não fala comigo? Eu é que sou a estrela!’. Por que Lula e Dilma não falam conosco? Nós é que contribuímos!
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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