Há reprodução de ditado italiano pregado no meu painel de trabalho para lembrar, toda vez que começo a trabalhar qualquer texto, que escrever para publicar é correr o risco de ser mal interpretado, incompreendido, criticado ou até mesmo apedrejado. Cruz credo! Fico lisonjeada, como qualquer autor, quando alguém se revela leitor, quando aparece algum elogio e mesmo quando discordam de mim e têm a coragem de me espinafrar. Afirmo que não apresento qualquer traço masoquista de personalidade, meu terapeuta pode confirmar, não gosto de apanhar, mas como não sou petista, acho profundamente saudável que haja vozes em discordância para que a sociedade possa evoluir enquanto os cidadãos debatem ou discutem para eleger o melhor, o mais saudável, o mais seguro para todos. Entretanto, confesso, não gosto de surras, embora adore cutucar a onça com vara curta...
Há algum tempo escrevi sobre a vergonha de ser brasileira em terras estrangeiras, principalmente quando acompanhada de brasileiros ruidosos; que falam alto demais; revelam-se mal educados, furadores de fila, jogadores de papel no chão; bagunceiros, perturbadores de corredores de hotéis ou que entrem em aviões e ônibus cantando Eu vou pra Maracancalha! em coro. Meu rosto pega fogo sempre que perguntam sobre política e políticos brasileiros toda vez que jornais e noticiários estrangeiros divulgam notícias que põem o Brasil na lista dos países mais subdesenvolvidos do mundo. Idem, sobre a humilhante colocação brasileira no ranking dos países de baixo índice de educação, saúde, de combate à prostituição infantil, roubos, bala perdida, tráfico de drogas e segurança pública. Numa próxima viagem, prepararei material porque fatalmente me perguntarão sobre corrupção política, mensalão e lava-jato. Quero estar bem preparada para responder e, quem sabe, melhorar a forma como estamos sendo vistos lá fora, visto que até o jornalzinho de Aruba, pequena e paradisíaca ilha do Caribe, trouxe ampla matéria – com foto e muito destaque – para a manifestação daquele domingo no Brasil.
Mas, dizia, após a publicação de uma dessas polêmicas matérias, fiquei com medo de apanhar na rua. Leitores escreveram desaforos, me chamaram de burguesa, desinformada. Sugeriram que eu me mudasse para longe, já que meu povo me envergonhava. Essas bobagens. Vou sugerir a esses leitores que vejam vídeo, da HBO acessado no mundo inteiro, que circula na internet, desde o panelaço durante pronunciamento da presidente Dilma.
O apresentador zomba do Brasil o tempo inteiro e se refere a nós como o país que depilou a Amazônia e onde a presidente passou a semana toda lidando com a evolução de escândalo de corrupção, que ameaça derrubar seu governo. Tão sério imbróglio, que a Suprema Corte aprovou investigação de alguns dos principais políticos brasileiros acusados de receber propinas em troca de contratos da companhia petrolífera estatal Petrobras. “Propinas?” ele se espanta e mostra recorte do The New York Times revelando que empresas de construção teriam pago 800 milhões de dólares em suborno e outros fundos para garantir contratos. A plateia se escangalha de rir e ele pondera: “Você precisa de empresa de construção poderosíssima para construir banco grande o suficiente para guardar tal suborno!” Riem-se todos e ele conclui: mais de 30 membros da coalizão Rousseff estão sob investigações e ela foi ao ar para acalmar o povo. Entra vídeo do discurso da presidente Dilma: “Você tem todo o direito de gritar e ficar preocupado, mas peço paciência e compreensão porque essa situação é transitória.” O apresentador escarnece: “É mesmo? Transitória? A menos se use em todo o país aquele apagador de memória de ficção científica, as pessoas não irão esquecer!”.
Fiquei envergonhada. O mundo inteiro pensa e vê assim o Brasil nesta era de divulgação ampla e irrestrita, imagino. Isso exigirá que o João Santana use verbas e verbo de montão para limpar e higienizar a área política.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora – luciahelena@comerciodafranca.com.br
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