“Se você agir sempre com dignidade, talvez não consiga mudar o mundo, mas será um canalha a menos”
John F. Kennedy, presidente americano
Quando tinha uns cinco anos, no finalzinho dos anos 70, morava numa casa bonita da rua Manacá, na Vila Flores. Nosso shopping era a rua, onde brincávamos todos os dias. Pão - francês, italiano e brioches, esses últimos bons de serem devorados com fatias de presunto besuntadas de maionese - a gente comprava na Panificadora Pucci. Vinha embrulhado em papel rosa, áspero, inconfundível, que depois aproveitávamos como rascunho.
Também vinha embrulhado no mesmo papel rosa a carne comprada no Áurea Supermercados, na rua Campos Sales, bem em frente ao Banco Itaú, onde hoje está instalada uma rede varejista. Ali era o lugar de fazer as “compras da casa”. Ia sempre com minha mãe, a pé, mais para fazer companhia do que para ajudar.
Numa dessas idas ao Áurea, cometi um erro - pela primeira e única vez na vida - terrível. Vagava por aqueles corredores, imensos aos olhos de uma criança, quando topei com uns saquinhos cheios de pequenos carrinhos de plástico. Supus que minha mãe não me deixaria levá-los para mim. Diante da frustração antecipada, resolvi dar um jeito de garantir meu brinquedinho: peguei o saquinho e escondi no bolso.
Em casa, enquanto mamãe guardava as compras, abri o saquinho e comecei as brincar com os carrinhos. Havia um branco, um preto, um amarelo. Os outros dois, nem tive tempo de pegar. “O que é isso, meu filho? De onde vieram esses carrinhos?”, perguntou mamãe. “Peguei no supermercado”, respondi. “E você pagou com que dinheiro?”, rebateu. “Só peguei”, insisti, como se a falta de pagamento não fosse relevante. Para mim, o único problema era ter pego sem avisar minha mãe. Aprenderia em instantes que aquilo era coisa para jamais se repetir.
Minha mãe ficou muito brava. Mandou que eu colocasse os carrinhos de volta na embalagem imediatamente e me puxou pela orelha até o supermercado Áurea. Ali, tive que “devolver” o brinquedo e pedir desculpas a alguém que, imagino, era o gerente. Ao perceber as pessoas me olhando e minha mãe constrangida, senti uma vergonha do tamanho do mundo. De volta para casa, ainda fiquei umas horas suando frio. Tinha sido devidamente avisado de que teria que contar tudo a meu pai. Quando ele chegou em casa e ouvi seus sapatos rangendo o assoalho, senti calafrios. Seus olhos de censura me marcaram para sempre. Nunca mais peguei um fio de cabelo que não me pertencesse. Foi uma lição definitiva.
Um outro menino, bem mais velho e inconsequente, recebeu de forma mais dura lição parecida na última semana. O garoto, de 14 anos, mora com a mãe e dois irmãos menores no complexo Aeroporto. Era quarta-feira e, depois da escola, o menino acompanhou um colega até o que, imagino, seja uma mercearia. Enquanto fingia estar interessado em comprar balas para distrair a vendedora, o amigo tentou roubar chicletes. Acabaram flagrados pela funcionária do estabelecimento, que chamou a polícia. Foram então abordados pela Ronda Escolar.
A mãe é diarista e trabalha duro para sustentar, sozinha, os três filhos. Eram 19h quando, ao chegar em casa, foi avisada pelos soldados sobre o que havia acontecido. A mulher pegou o filho e rumou na mesma hora para o Plantão Policial. Ali, apresentou o menino ao delegado. Queria registrar boletim de ocorrência contra o próprio filho.
“Quando ele nasceu, o médico falou que era um homem que tava nascendo. É isso que eu peço, sabe, que ele vire um homem”, disse a mulher, emocionada, em entrevista aos repórteres Marcelo Valim e Barros Filho, do GCN, que publica o Comércio. Para ela, pouco importa se seu filho apenas “ajudou” o amigo distraindo a vendedora. “Se estava junto, era cúmplice”.
Que ninguém pense que a mulher seja uma mãe fria e distante. Pelo contrário, a voz embargada deixa claro que o que ela deseja é o melhor para suas crias. “Dou meu peito para receber uma bala no lugar dele, se ele estiver certo. Agora, se ele cometer algum ato que não esteja dentro da lei (...) vou levá-lo à delegacia”, garantiu.
E o que a mãe pretendia ao levar o filho até a delegacia? Que o menino passasse uma noite na cadeia para aprender, definitivamente, que uma pessoa de bem não pega o que não lhe pertence. “Quem rouba chiclete à tarde, assalta um banco pela manhã”, ensina. “A gente tem que conquistar as coisas com o suor do rosto da gente”.
Obviamente, o menino não foi preso, o que nem teria razão de ser, assim como não houve registro em boletim de ocorrência. Mas ouvir na entrevista a voz do rapaz trêmula e envergonhada ao deixar a delegacia, prometendo jamais repetir o que havia feito, deixa claro que a missão desta mãe foi bem sucedida.
Se ele vai se converter ou não no homem que ela aspira, só o tempo dirá. Mas uma coisa, é certa: neste país de tantos políticos e empresários corruptos, onde tanta gente sem vergonha rouba descaradamente, em que a lei não funciona para proteger o cidadão de bem e ainda permite que malfeitores se escondam por detrás de “sigilos” judiciais apenas para se esquivar da opinião pública, um menino que tentou roubar uns chicletes nasceu com sorte grande. Tem, dentro de casa, a melhor mãe e professora com que qualquer pessoa poderia sonhar. E isso, não tem preço.
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN
email - jrneves@comerciodafranca.com.br
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