Covardia


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Sabe como se diferenciava o garoto educado do garoto mal educado quando escolhiam coleguinhas para brincar de pique? Simples. Todos em círculo, o garoto educado tocava no peito de cada um e selecionava: “Uni, duni,  tê, salamê mingüê, o escolhido foi você!” Esse já estava eleito e ele continuava a arenga até alcançar time oficial e a ordem de entrada dos reservas na brincadeira. O garoto mal educado fazia a mesma coisa, só que batia forte no peito do colega, quase o derrubava e substituía a lenga-lenga por: “Bolô fedô, rebenta o c* de quem p*idô!”. Times estipulados, punham-se a brincar. Se todos respeitassem as regras, via de regra, o jogo seguia nos conformes. 
 
Sabe como garotos, educados ou mal educados,   julgavam os colegas que saíam dos limites e usavam truculência porque julgando-se com razão batiam e depois saíam correndo, com medo de apanhar daqueles nos quais batera? Gritando bem alto, como para marcar o fujão,  a peja que amedrontava socialmente o covarde pugilista e que o discriminava dali para frente: “Fugiu de medo, c*g*u no dedo, pegou um pauzinho e limpô o dedo!”. A avaliação era repetida em coro pelo grupo inteiro. Mesmo criança o atacante tinha vergonha, sumia por uns tempos e jamais chamava alguém mais forte para revidar, para protegê-lo ou servir de anteparo para a punição e desprezo que viriam logo após a contenda.  A última parte, do “pegô o pauzinho pra limpar o dedo”, nunca entendi bem. Não importa. A primeira parte, do se “sujar” ao bater e fugir, cumpre bem o papel de descrever a atitude de qualquer covarde, em qualquer local: na várzea infantil, na Câmara Municipal ou Versailles. Pensei nisso ao ver o vídeo do cidadão agredido por vereador que, inconformado com julgamento e questionamento públicos por eleitor,  saiu no tapa. E aí, fugiu. Tudo indica,  teria  ido buscar recurso para limpar o dedo. 
 
Quem acompanha o noticiário, opiniões e discussões que seguiram o triste episódio, talvez não saiba quem é o cidadão estapeado pelo vereador.  Sua formação acadêmica é em engenharia: tornou-se e se identifica profissionalmente como marceneiro por opção. Hábil e  caprichoso é artista que produz peças que já foram exportadas e  são procuradas por quem deseja presentear ou ter objetos raros e originais. Ele estudou, sabe o que diz, está enojado com os rumos políticos do Brasil, tem discurso fundamentado na coerência e na ética. É considerado grande figura pelos participantes dos grupos com os quais convive, pessoalmente é amoroso e doce. Seus amigos sabem disso. Sua vida particular, que a ninguém interessa, tem lances dolorosos, tristes, alegres, hilariantes, saborosos, desesperadores, marcantes, delicados, memoráveis: é igual à vida de todos nós. A única diferença é que ele é Cidadão: interessa-se por política, votou, escolheu e não tolera ser voz que clama no deserto. Quer despertar quem dorme. Quer fazer andar quem se acomodou na cadeira, fica só no discurso, não arregaça as mangas e cobra, mesmo correndo o risco de levar tapa na cara. 
 
Do agressor, pouco sei. Há algum tempo propôs-me amizade pelo Facebook, aceitei. Desconheço seus méritos. Não o elegi, gostei quando soube que havia mudado de partido. Estranhei ao saber que teria procurado a Justiça para penalizar o “seu agressor”: isso é que é inverter uma situação, achei.  Estranhei ainda mais o mutismo quase absoluto dos seus colegas de Câmara diante do abominável episódio, que fizeram “cara de paisagem”, aquela dos que lavam as mãos para manter neutralidade. Como francana fiquei com vergonha dos moradores das cidades vizinhas ao ver no jornal a foto da porta da Câmara cheia de seguranças particulares. Fiquei pensando: quem pagou a conta: o próprio vereador ou o dinheiro era público? Não seria mais adequado escolher entre todos quem poderia entrar usando o bolo-fedô ou o uni-duni-tê?
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora – luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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