Nostalgia


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Onda de nostalgia na quarta-feira de cinzas me fez mergulhar em oceano de sentimentalismo. Começou com a voz de Araci de Almeida interpretando composições de Noel Rosa. Intensificou-se com a exibição dos musicais e clássicos antológicos de Hollywood pela televisão. Bastou. Chamas intensas, centelhas e labaredas reavivaram Glenn Ford, Frank Sinatra, Fred Astaire e Gene Kelly acompanhados por Rita Hayworth, Ginger Rogers, Doris Day e Judy Garland. Estranhíssimas essas emoções que brotam no fundo da alma e revelam aspectos desconhecidos da personalidade. 
 
Julguei que o acaso teria me levado para as gôndolas das locadoras na captura de filmes antigos, românticos, melosos. Não admitia, pelo menos naquele momento, serem o maná necessário para saciar alguma necessidade do meu inconsciente. Acostumada com filmes modernos, trama esmerada, produção impecável, diretores exigentes, desacostumei-me do puro e simples prazer de acompanhar uma história. Escolhi Corações Enamorados com Frank Sinatra e Doris Day. Assisti meio escondida, temerosa das críticas dos ilustres membros da família. Com razão. Não deu outra. Ao perceberem a idade do filme perguntaram se era gravação da ‘Sessão da Tarde’, reclamaram do cheiro de naftalina exalado pela televisão, riram da cintura da Doris Day, duvidaram ser o jovem da tela o grande Frank Sinatra de New York, New York. Nem liguei. 
 
Embalada pela melancolia, achei Rebeca, produção da década de 30, com Joan Fontaine e Laurence Olivier. Tinha particular pinimba com o nome da ‘Mulher Inesquecível’. Dos meus tempos de mocinha, guardo a nítida lembrança da vizinha que deu esse nome à filha e costumava chamá-la aos berros, quando brincávamos no pátio do prédio de apartamentos, debruçada na grade do corredor: “Rébéquiiinhaaa!”. Sem nunca ter visto o filme, falava dele meio enojada. Ao avaliar o filme como romântico e lindo, recebi ferinas críticas vindas dos familiares. 
 
Passada a dor da esculhambação, que não matou nem deixou sequelas, deitei e rolei. Trouxe Top Hat , com Fred Astaire e Ginger Rogers. O filme, de 1935 é quase imbatível em frescor, beleza e leveza: momentos fantásticos nos muitos minutos de exibição. Enredos dos filmes antigos não se encaixam nos 100 minutos considerados suportáveis nos modernos. Não há novidade na trama: ela gosta dele, ele gosta dela, mil percalços, interferência de vilões masculinos e femininos, muitos desencontros entre a flechada inicial do Cupido até o final. Feliz, claro. De quebra a antológica dança do par ao som do Cheek to Cheek, na fabulosa sequência em branco e preto. Quisera ser Ginger e ter um Fred para dançar comigo. A performance parece fácil, mas há que se ter equilíbrio, elegância, precisão, leveza, estilo, sofisticação e harmonia. 
 
Peguei Gilda. Nunca houve, nem haverá mulher como Gilda, dizem. A beleza de Rita Hayworth, ninguém ainda conseguiu descrever com justiça. Seus trejeitos com cabelos e o corpo deixam qualquer Sharon Stone tímida e infantil. E o streap tease — ela apenas tira uma luva e nenhuma peça de roupa — é avaliado por Ruy Castro como grande momento erótico da história do cinema. O roteiro é piegas demais. No final, quando ela olha para Glenn Ford com os olhos mais melados desse mundo e lhe diz roucamente: “Let’s go, Johnny. Let’s go home”, insinua grandes promessas numa simples frase.
 
Carência de romance? Cheguei à fase de contemplar ou à de permitir a eclosão de emoções, sejam elas quais forem? Dramas humanos, sejam eles os dos gregos de três mil anos atrás ou os dos atuais habitantes do planeta, têm basicamente os mesmos componentes: angústia, tristeza, ciúme, necessidade de amor, inveja, dificuldade de uma linguagem adequada que facilite o diálogo e desejo de posse. Assim, tais filmes podem não ser atuais, mas as necessidades deles recorrentes, e às vezes satisfeitas, são perenes.
 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, jprofessora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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