Folias


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Certas preferências humanas são determinadas pela genética. Outras, resultados do mais puro acaso — são as idiossincrasias. Inúmeras são como presentes de alguém da família que admiramos: nem gostaríamos tanto, mas acabam por nos deliciar, exclusivamente porque alguém amado gostava delas: pura imitação. 
 
Papai adorava Carnaval, minha mãe odiava. Também pudera. Ele era jovem, filho mais velho de família italiana, trabalhador, livre, guardava dinheiro para se esbaldar nos quatro dias de folia... até encontrar minha mãe. Ela era de família mista mineira por parte de mãe, paulista por parte de pai, não tinha dinheiro, vivia presa em casa porque quando seu pai descobriu o namoro com aquele italianinho de olhos azuis, estupidamente tirou-a da escola para aprender a ser dona de casa, o que na época era profissão. 
 
Nessa ocasião, se ela tivesse oportunidade, trocaria a prisão domiciliar pela convencional, acredito. Namoravam na sala, mil olhos sobre os dois, um minuto para se despedirem no portão. Não tinha mão na mão, nem em qualquer outro lugar que não fosse o braço da poltrona. Não tinha beijo. Não tinha afago, nem carinho. O bom era que moravam em frente um do outro. Uma casa do lado de cá, a rua e, bem na frente, a porta da casa do lado de lá. Sorte deles, a janela do quarto dela dava para a rua. Depois da frugal despedida, ela contava, ele escalava a janela do porão, que as casas daquele tempo os tinham, se dependurava no batente da janela e não ia embora enquanto ela não o beijava adequadamente. Quer dizer, dava aquele beijo que só aparecia antes do The End nos cinemas, quando o mocinho fazia as pazes com a mocinha. 
 
Ríamos dizendo que ele não ia embora, que nada, e ela ficava furiosa: só tinha beijo na janela. Bem, acreditamos. Palavra de mãe é palavra de mãe. Eram apaixonados um pelo outro. Paixão, mesmo. Ele era meio bruto, às vezes, meio grosso e ela turrona e teimosa, mas dava gosto vê-los juntos conversando. Ele aceitava como verdade inconteste o que ela dizia, mas nunca deixou de ir pescar quando queria ou de ver o Palmeiras jogar, aqui ou em São Paulo. Quando solteiros, por ocasião do carnaval, ela ficava literalmente presa em casa, sem permissão para ir à esquina. Não tinha direito de ir a algum clube, nem acompanhada pelo Papa. Não tinha permissão para ir ver o corso na praça. O pai não deixava. Assim, quando ela ouvia o relógio da sala bater nove horas e via o noivo se impacientar na poltrona e percebia movimentação diferente no entra e sai da casa em frente — eram os amigos chegando para a concentração — ela já saía na braveza. Discutia feio, terminava o namoro, mais tarde o noivado, ali mesmo. Devia sofrer bastante. Silêncio sepulcral depois das dez, ela ouvia risadas e barulho seco de tombos, logo no virar da esquina. Era meu pai e amigos que, com a ajuda de tia Elvira, irmã, pulavam o muro para cair na farra. Eles se casaram, ele nunca mais voltou a um baile de carnaval. 
 
Não me lembro de meus irmãos e eu recebermos um não, sempre que desejamos ir a algum baile de carnaval. Ele nos ajudava com as fantasias, com os lança-perfumes, confetes e serpentinas. Levava e buscava na porta do clube quando, mais velhos, não precisávamos de companhia de adulto para ficar no salão, até cairmos de exaustão. Mamãe implicava, ele retrucava: deixa os meninos, isso é diversão sadia! Não sei o que meu pai acharia dos carnavais modernos... 
 
Talvez ele se realizasse um pouco através de nós ou talvez percebesse que aquele traço específico era herança dele. Aprovava completamente. Estranha coincidência, gostava tanto, mas tanto, das folias de Momo, que faleceu numa terça-feira de carnaval. 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 
 

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