Calendário novo na parede, nem deu tempo de endireitar a folhinha, janeiro acabou. Não deixou saudades. É tempo de carnaval e, quando o carnaval chega, não se pensa em outra coisa. Esquecerei a cara de sarcasmo do Renan Calheiros, não quero saber onde está Lula, muito menos o quanto cresceu o nariz da Dilma. Vou deletar Graça Foster, Cerveró, Petrobras e cair na folia. Adeus Janeiro Negro!
Organizei meu bloco de carnaval. Comecei por cooptar amigos, familiares e trabalhadores em geral. Primeira ideia: o Bloco dos Palhaços. A fantasia em si não fugiria do tradicional, mas seria inspirada no Tiririca. Alguém argumentou que poderíamos ir com roupas comuns. Ficaria mais barato, que ninguém está com caixa cheio e, afinal, Tiririca é autoridade. Os palhaços somos nós, os contribuintes. Alguém sugeriu o Bloco dos Bandidos. Vestiríamos a roupa dos Metralhas, aquele macacão listrado de branco e preto. Mas ponderou-se que os maiores bandidos, pelo menos aqui no Brasil, usam terno e gravata, conforme exige o protocolo da Câmara e do Senado. E ninguém quis pôr a máscara do Collor, ou do Maluf, ou do Sarney, ou do José Genoíno. Do José Dirceu, então, nem se fala! Furou. Vai daí, deixamos livre a fantasia. Cada um vai como quiser.
Estimulada pelo figurino carnavalesco exibido pela televisão, e sem muito recurso financeiro em caixa, pensei em sair de Franbeleza. Fantasia baratinha. Bastaria par de sandálias e adesivo tipo emplastro para ser colocado sobre, bem, sobre minha identificação de gênero. Muita purpurina, de todas as cores. Ninguém objetou, todavia percebi ligeiro incômodo entre os participantes da mesa. Mais tarde, ao olhar no espelho para avaliar, concluí que burca da cabeça aos pés me cairia muito melhor. Vou deixar a idéia de sair sem roupa para a próxima encarnação.
A seleção das músicas a serem cantadas pelo grupo constituiu momento tenso. Os politicamente corretos raça chata nascida nestes anos politicamente incorretos, apresentaram a lista de proibições. Maria Sapatão, composição de 1950, popularizada por Chacrinha cuja letra conta que Maria Sapatão de dia é Maria, de noite é João e a Cabeleira do Zezé (Será que ele é bossa nova, será que é Maomé, ou transviado?), criada em 1963 por João R. Kelly e Roberto Faissal, foram descartadas por serem consideradas “ofensivas e discriminatórias”. “Evitemos problemas com a LGBTTT Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros!”. Tenho cá pra mim que a eliminação da última música é mais por causa da referência a Maomé. E aquela outra, cantada desde 1940, de Haroldo Lobo e Nássara, Ala-laô, foi igualmente banida do nosso cardápio musical. Lembra? Começava reclamando de algo bem atual: mas que calor, ô ô, ô, ô! E continuava: viemos do Egito e muitas vezes tivemos que rezar: Alá, Alá, Alá meu bom Alá! Bem, se a letra não compromete, o refrão poderá nos pegar desprevenidos diante de algum radical. Melhor eliminar. Porém o veto para Acorda Maria Bonita, levanta vai fazer café! foi meu. Confesso.
Bom, o que falar, então das inúmeras referências à mulata, ao cabelo da mulata, à cor da mulata, à própria mulata? Embora o brasileiro tenha descoberto a marchinha com Chiquinha Gonzaga e sua Abre Alas, sua popularização só aconteceu em 1932, quando o país inteiro cantou O teu cabelo não nega porque és mulata na cor, mas como a cor não pega, mulata eu quero seu amor. Importância à parte, foi vetada por causa do cunho racista. A pipa do vovô, divulgada por Sílvio Santos foi descartada: de muito mau gosto. Idem, Me dá um dinheiro aí, por causa dos tempos magros. Porém, decidimos, faremos grande círculo para cantar de joelhos Tomara que chova! Três dias sem parar!
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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