Paixão avassaladora. Grande amor. Frio na barriga. Levitação. Aquele sentimento que, no dizer de Cortázar, deixa o sujeito estaqueado no meio do pátio, como se atingido por um raio. Quem viveu algo assim? Se sim, é pessoa privilegiada. Se não, perdeu com a falta de diversão.
Sábado à tarde é o tempo mais perigoso que existe para o desfrute do ócio. Sem opção para sessão da tarde no cinema, e depois daquele almoço que costuma ser tardio e meio exagerado, fica-se à mercê de lembranças, quimeras, sonhos desfeitos, outros realizados e de desejos nem sempre confessáveis. Dizem que mente vazia é morada do diabo. Mentira. O diabo se posta no sofá da sala todo sábado à tarde, à espera do primeiro humano que nele se sente, abraça-o e começa a judiar dele.
A letra da belíssima canção O que tinha de ser de Tom Jobim que Elis Regina imortalizou, há anos guardada num canto da memória pouco visitado, naquela tarde de sábado de repente estava no prompter imaginário diante dos meus olhos. A letra subia enquanto as lembranças arquivadas se soltavam e saíam da caixa das recordações. Resistir? Jamais. Recordar é viver, sussurrou-me o diabo. Procurei no Youtube, copiei, publiquei a canção de amor no Facebook. A letra é declaração que qualquer ser gostaria de merecer. Ou receber. Imediatamente um sem número de casais com diferentes conformações da minha lembrança ou convivência saíram da caixa do passado e se materializaram. Casais diferentes e em formações diversas. Em comum, o grande amor que os uniu um dia, independente do final convencional do foram felizes para sempre. Desfilaram amores formados por mãe e filhos, pais e filhos, amigos, amigas e, óbvio, homem e mulher. Sem me ater neste último bloco, deixei que as imagens e lembranças dos protagonistas saíssem livremente de onde estavam guardadas. Eram tantas e de histórias tão diferentes e tão interessantes, que fiquei entusiasmada. Imediatamente postei uma mensagem no Face e disse que, estimulada pelas recordações despertadas pela música, pensava em escrever um livro cujo título seria Grandes Amores. Para minha surpresa, os comentários chegaram de forma igualmente rápida, a maioria deles com incentivos e estímulos, alguns de pessoas que mostravam desejo de contribuir com suas próprias lembranças. Foi aí que, tive certeza, quase todo mundo viveu, um dia, uma grande história de amor. Ou de ódio que, dizem, também possui em sua composição alto teor de amor.
Mães que olham o filho e dos seus olhos jorra mel; mãe que olha a filha, ser em tudo semelhante a si mesma e que esteve um dia ‘boiando dentro do seu próprio corpo’; pais que são capazes de loucuras para defender os filhos; homens que enfrentam exércitos por causa das amadas; mulheres que defrontam hordas para salvar o ser amado; amigos que se protegem; casais que se consumam em tórridas experiências. O amor tem muitas caras, tantas quantas as multidões que vivem dentro de nós.
Diante do clichê convencional do amor sentimental entre seres humanos, lembrei-me, gregos explicam que, no começo, quando os deuses viviam em turbulência e os humanos eram literalmente bolhas, na sua essência femininas, masculinas ou mistas e flutuavam mansamente no éter, diz a lenda que os poderosos foram tomados de profunda inveja dos mortais. Decidiram explodir as bolhas perfeitas, que se separaram em homens e mulheres que, na confusão e bastante aturdidos, se perderam dos pares originais. Desde então tais seres procuram-se alucinadamente, porque só serão novamente felizes se acharem aqueles com quem formavam a bolha original. Tal é a explicação para os une e separa das uniões, para a homossexualidade e para os relatos das histórias da busca humana da felicidade. Mãos à obra, portanto. Se quiser também compartilhar sua história, porque com certeza você tem uma, fique à vontade.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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