Polêmica


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Dois assuntos polarizam as atenções do mundo produzindo milhares de combinações de comentários ácidos, corrosivos, venenosos, carregados de ódio, intolerância, desejos de vingança, revide, comiseração, revolta, cumplicidade, conivência, solidariedade. A Indonésia foi palco de um dos dois episódios polêmicos. Distante e pitoresco país; nação transcontinental por sua localização entre dois continentes; maior arquipélago do mundo - 17.508 ilhas entre o sudeste asiático e a Austrália; república com poder legislativo e presidentes eleitos por sufrágio universal; membro do G20; co-fundadora da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático); 18ª maior economia do mundo e 15ª maior em paridade do poder de compra. Sua capital, Jacarta, tem população de 10 milhões de pessoas. Não é “paizéco”.
 
O outro país, a França, dispensaria apresentações, embora a configuração e dinâmica dos habitantes nestes tempos de abertura da imigração tenham sofrido mudanças radicais. A miscigenação racial dentro de alguns anos terá mudado o estereótipo físico francês tal qual o conhecemos. Andar pelos canais e parques não oferece a tranquilidade de décadas passadas: assédio e violência de moradores imigrantes impedem foco de  atenção nos detalhes históricos e ficcionais da que se considera a mais bela cidade do mundo. (Bairristas afoitos, o Rio de Janeiro é considerado também a mais bela cidade do mundo, mas em beleza natural.) 
 
Entre preparativos de viagem, está atenção com as leis do país que se visita. Na Indonésia — avisam carimbos do visto de entrada, a voz dos comissários de bordo e cartazes nas alfândegas — que as leis locais não têm tolerância ou complacência com traficantes de drogas e que, pegos em flagrante, estarão sujeitos à pena de morte. Quem vai está careca de saber o que acontecerá se for pego com a mão na botija. Dois brasileiros tentaram ludibriar a vigilância, foram presos, julgados e condenados. Um morreu sábado. Fuzilado. Não se trata de discutir a aplicação do procedimento e sim se temos o direito de pedir abrandamento de pena para quem transgrediu leis em país estrangeiro. Se é lícito interferir no código de leis alheio. 
 
Em Roma, como os romanos, ensinavam-nos: experimente beijar uma inglesa mais velha à guisa de cumprimento quando for apresentada a ela. Experimente arrotar alto após qualquer jantar formal em casa de brasileiros. Experimente ultrapassar limites de velocidade indicadas oficialmente, mesmo na Itália. Experimente atropelar ou matar alguém em acidente de trânsito na Suécia. Proporções devidas, os dois turistas brasileiros sabiam o que estavam fazendo. Sabiam que desafiavam regras e princípios. Sabiam e mesmo assim, tentaram.  Artistas franceses de inegável talento desenharam e publicaram charges cuja tônica era, frequentemente, ácida crítica às duas religiões mais importantes do planeta, o Catolicismo e o Islamismo. O mundo acompanhou, estarrecido e impotente a agressividade, matreirice e violência dos assassinos quando invadiram a sala do escritório onde estavam reunidos impotentes e incautos chargistas e assessores da revista, quando foram mortos a tiros. Fria e cruelmente. A Igreja Católica pronunciou-se sobre as charges defendendo a liberdade de expressão, mas advertindo: “se xingar minha mãe, espere um soco”. Não disse nada sobre ofensas ao pai. Os muçulmanos, que tiveram o pai Maomé ofendido, revidaram com ferro e fogo. 
 
Péssima em julgamentos de quaisquer natureza, recorro e aplico Isaac Newton para fazê-lo. “Um corpo em repouso permanecerá assim, se nenhuma força estiver atuando sobre ele e um corpo em movimento permanecerá em movimento se não houver uma nova força atuando sobre ele.” Segundo, “o corpo adquire velocidade e sentido de acordo com a força aplicada.” Terceiro, “toda ação provoca uma reação de mesma intensidade e direção, mas em sentido oposto.” Bom final de semana para você também!
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 
 

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