Talvez porque a maioria das pessoas do meu relacionamento esteja beirando a sexta ou a sétima década de vida, o assunto envelhecer tem ocupado bom naco do tempo que passamos juntos. E aí se fala de tudo. Frases de auto-promoção ‘envelhecer é uma arte’. De compensação: ‘Nossa experiência de vida é grande’. Mentiras: ‘Eu? Voltar no tempo? De jeito nenhum!’ De tristeza: ‘Ah! Se eu pudesse voltar! Só dez anos! Não pediria mais...’ Há até os amargos: ‘Isso (a vida) podia acabar logo!’.
De minha parte, concordo em parte, discordo em parte. Acho que envelhecer é uma merda, prá falar o português claro. Olhar no espelho e não reconhecer a mulher do porta-retratos de pele lisa, dentes brancos, cabelo esvoaçante, nariz e orelhas ligeiramente menores que hoje, ombros mais aprumados; não conseguir correr nem puxar os braços para trás; andar mais rápido e botar os bofes para fora; conseguir a proeza de abaixar para amarrar os tênis sem botar os bofes pra fora me faz pensar seriamente em candidatura a vaga de ginástica de solo nas próximas olimpíadas. Manter o guarda-roupas cheio de vestidos lindos que não me cabem mais na esperança de usá-los caso suceda algum milagre, percebo cada dia mais, é pura insanidade (ou senilidade?).
Ao chegarmos a esse crítico momento nós, mulheres, damos de cara com a encruzilhada que oferece não apenas duas opções, mas um monte delas.
(Homens são mais medrosos. Muitos, que têm dinheiro e nenhum medo do ridículo, nessa fase arranjam uma mocinha, exibem-na como troféu e devem viver felizes curtindo a fase do auto-engano. Não sou homem, não posso sequer imaginar como se sentem.)
Nós, mulheres, como ia dizendo, damos com portas à nossa frente. Há a da Entrega Total: viramos babás dos filhos dos filhos e organizadoras do caos da vida deles. Seguir por aqui dá em frustração: um belo dia ficam todos autônomos e nós sozinhas a pensar na besteira desta doação sem limites. Outra porta muito concorrida é a da Omissão Total. Filhos têm problemas? Problema deles. Vamos visitar suas famílias de bolsinha no colo, meia de seda e a boca cheia de água para não falar, só ouvir. E sorrir. Importante manter a bolsa aberta para eventuais mostras de prodigalidade. Todavia, posso assegurar, não funciona. É relação de pouco ou nenhum afeto e ainda somos mais ou menos normais a ponto de queremos bem que nos sucederá na vida.
Damos com portas de trilhas bizarras, como a da competição de mães com filhas. Talvez pelo abrandamento das amarras sociais, pudemos nos aproximar visualmente das nossas filhas. Tornou-se comum mães e filhas se vestirem quase igual, usar o mesmo corte de cabelo, idêntico tipo de maquiagem. O problema surgiu quando as mães decidiram fazer de conta que não há diferença de idade o que, convenhamos, é estupidez.
As minissaias passaram a ser disputadas; os shorts curtos viajam de guarda-roupa para guarda-roupa; o look de mãe e filhas se igualou, mas não se confundiu: por mais jovem que seja, a mãe é mais velha e parece mais velha, mesmo que não queira.
Vestido de babadinho ou plissado ou a salada tops curtos e transparentes + shorts + sandálias de plataforma é apetitosa, não é? Mas só para quem não ultrapassou o Cabo da Boa Esperança. Blusa com barriga de fora é sexy, não é? Para quem pode, tenha a idade que tiver e menos de trinta e cinco, por favor. Não somos obrigadas a usar manga comprida ou maxissaias depois dos enta, mas ouçamos o senhor Bom Senso e dona Prudência, excelentes personal stylists! Contudo — creia-me! — o pior de envelhecer é que a gente se autoriza a criticar os outros, como estou fazendo agora...
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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