“Os humoristas dizem coisas sensatas revestidas de loucura, e loucuras revestidas de sensatez”
Carlo Dossi, escritor italiano
Difícil quem não tenha acompanhado, com sentimentos que variam da perplexidade à relativa indiferença, os trágicos acontecimentos que tingiram a França de sangue nesta última semana. No total, 17 inocentes morreram como resultado direto das ações tresloucadas praticadas por um trio de fanáticos religiosos em dois ataques praticamente simultâneos, na sede de um jornal satírico e num mercado de produtos judaicos, e na tentativa de fuga que empreenderam até serem cercados e também mortos. Foram 54 horas de pânico em Paris. Têm sido dias de estupefação ao redor do mundo.
O braço da Al-Qaeda no Iêmen, uma espécie de país-hospedeiro do terrorismo internacional localizado na península arábica, assumiu a responsabilidade pelo ataque ao jornal Charlie Hebdo. Justificou o massacre dizendo que se tratava de “vingança pela honra” contra cartunistas que satirizaram o profeta Maomé, o “messias” para quem segue o Islã. Além de 11 jornalistas e profissionais que estavam na redação do Charlie Hebdo na manhã de quarta-feira, morreram também dois policiais - um, que fazia a segurança do prédio; outro, que trocou tiros com os terroristas e, caído no chão, implorou em vão pela própria vida antes de ser executado com um tiro na cabeça - e quatro fregueses do “Hyper Cacher”, o mercadinho judaico.
Nenhum espanto se você nunca tiver ouvido falar do Charlie Hebdo até quatro dias atrás. Pouca gente fora da França o conhecia. Enquanto publicação, é muito diferente do que nos acostumamos a entender como jornal. Para começar, não é diário. Circula apenas uma vez por semana, às quartas-feiras - daí o nome Hebdo, diminutivo francês para Hebdomanaire, “semanário”; o Charlie é uma homenagem ao personagem Charlie Brown, das tirinhas Peanuts. No formato e no layout, lembra muito mais uma revista e, ao invés de narrar ou opinar através de longos textos, recorre às ilustrações, quadrinhos e charges. O humor é seu bastião. É através do sarcasmo, da ironia, da sátira que seus jornalistas cumprem seu papel, sinalizam absurdos, expõem contradições e denunciam abusos.
Que ninguém pense que o Charlie Hebdo seja contra os muçulmanos. Ele é anti-quase tudo que é extremo. Critica o fundamentalismo islâmico, mas também a pedofilia e a corrupção no clero católico, o sectarismo judaico, a extrema-direita, a extrema-esquerda, o comunismo obtuso, o capitalismo selvagem, as ditaduras de qualquer perfil. É um jornal de inconformados.
Nos últimos anos, o jornal acabou transformado em inimigo de grupos terroristas muçulmanos, irritados com as diversas ilustrações que ridicularizavam Maomé. Nunca foi uma piada gratuita. Charlie não ria da fé individual de ninguém. Suas provocações decorriam de flagrantes absurdos de uma interpretação radical dos “textos sagrados” e dos excessos da aplicação da sharia, o código de princípios islâmicos transformado em lei ordinária em alguns países e adotada também por 10 em cada 10 grupos terroristas.
Dá para discordar do Charlie? Alguém aceita que, em nome da “tradição” e da “fé” no Islã, uma mulher estuprada seja obrigada a se casar com quem a violentou, como acontece em muitos lugares do Oriente Médio? Alguém concorda que um sujeito possa ser condenado a 1000 chibatadas por criar um fórum de debates políticos na internet, como na Arábia Saudita? Quem acha justo que alguém seja apedrejado até a morte só por ser gay? Que mulheres sejam proibidas de estudar? Que ninguém possa beber álcool, porque “ofende” o profeta? Ou, ainda, alguém concorda que todos aqueles que não aceitem se converter ao islã, como defendem os grupos Boko Haram e Estado Islâmico, sejam sumariamente executados por não aceitarem “Alá” em seus corações?
É contra tudo isso que protestava o Charlie Hebdo. Suas armas eram - e vão continuar a ser - lápis, papel, argumentos e ironia. É legítimo que muitas pessoas achem o estilo do humor exagerado demais. Que identifiquem ali mau gosto ou, até mesmo, desrespeito. E, democraticamente, decidam não comprar o jornal, não ler o que ele publica, não admitir dentro de suas casas. Se quiserem agir ativamente, podem criticar nas redes sociais, em outros veículos de comunicação ou, ainda, lançar um jornal concorrente ao Charlie Hebdo para promover suas ideias, por mais extravagantes que sejam.
O que não se admite, jamais, é que qualquer um, sob qualquer justificativa, recorra à violência e ao terror para silenciar quem pensa diferente. Não há nada de “honra lavada” nisso. É pura e simples bestialidade, que tem que ser combatida até o último suspiro, com toda força e energia, por qualquer um que reconheça o valor da democracia, das liberdades individuais, do direito de expressar suas ideias e opiniões. Aqui, na França ou em qualquer outro lugar do mundo, #somostodoscharlie.
Em tempo: enquanto no Brasil o governo da presidente Dilma, apoiado por radicais petistas e professores universitários que são assassinos de ideias, defendem mecanismos para “regular” e “controlar” a mídia, na França o governo age em sentido inverso. Poucos dias depois do atentado o presidente François Hollande anunciou uma ajuda de R$ 4 milhões para o Charlie Hebdo seguir com sua missão. Um grupo de jornais franceses vai doar outro R$ 1,5 milhão. O grupo de profissionais remanescentes do Charlie, com sua verve típica, se batizou de “os sobreviventes” e segue trabalhando. Quarta-feira o jornal circula. Vai sair com um milhão de exemplares, 20 vezes mais do que o normal. Não há melhor resposta para o terrorismo do que a resistência francesa. Um povo para quem a liberdade é, de fato, valor inegociável.
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN
email - jrneves@comerciodafranca.com.br
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