Tinha a profecia: ‘Mil passará, dois mil não chegará!’ Pois 1000 passou, nada aconteceu, 2000 chegou e se instalou. 2015! Queria ver a cara das vovós que vaticinavam sombrio futuro para as gerações subsequentes. Apocalipse, ressurreição dos mortos, fim do mundo, chegada dos quatro tenebrosos Cavaleiros - Peste, Fome, Guerra e Morte.
Vovó, rainha do raciocínio ilógico, provaria que a Bíblia tinha razão. Haveria o Apocalipse, sim, com a chegada dos Cavaleiros e tudo o mais! Porém no sentido metafórico, minha filha! Ela diria — eu a vejo dizendo: ‘a Peste é Lula, que não tem antídoto. Nada o atinge, sempre escapa das mais justas das saias. A Fome é a do conhecimento, pelo qual nossos irmãos anseiam, sem saber. Recebem bolsas cheias de alimentos materiais, que não saciam a mais terrível das necessidades, que é a do saber que supõe perceber, auferir, concluir, escolher e decidir. A Guerra é a da estúpida agressão de pessoas que pensam assim, engendradas por gente que pensa assado. E a cara da Morte, minha filha, é a da Graça Foster: talvez ela tenha matado, quando meteu os pés pelas mãos, nossa esperança de autonomia com a produção de petróleo!” (Sábia vovó!)
Todavia Ano Novo traz alento: não através das promessas — que exatamente não faz — mas daquela velha crença de que com simples troca do calendário nossa vida virará de ponta cabeça, e como num caleidoscópio, as mesmas peças se disporão lindamente num desenho mágico, colorido, renovado e auspicioso. Nada muda durante o novo ano, se você não quiser e ou batalhar duro.
Todo começo de ano escrevo longa lista de determinações a serem cumpridas ao longo dos dias que virão, acreditando na minha sobrevivência, o que já é prova de minha esperança: quem me garante continuidade? Afinal a vida humana é marcada pela imponderabilidade e impermanência. Mas além de escrever minha arrogante relação de atitudes, ainda tenho a coragem de divulgá-la.
Revendo-a, fiquei com vergonha. Cumpri duas ou três metas, das mais fáceis. Neste 2015, porém, decidi focar três mais graves defeitos, entre os incontáveis outros que possuo. Intolerância, agressividade e impaciência. Este ano vou brigar contra eles, feito gente grande. Juro! Vou engolir minha raiva quando alguém furar a fila do caixa onde estou em atendimento — ‘só um minutinho, bem!’ — para perguntar onde está a mercadoria tal. (Vou, sim!) Ficarei quietinha atrás do carro estacionado em fila dupla na porta da escola enquanto a mãezinha — com roupa de ginástica — desce para levar filhinha, dar um beijinho nela e adeuzinho até a menininha desaparecer no saguão da escola. (Juro! Não buzinarei ou levantarei a voz.) Esperarei com calma quando a moça da loja estiver no caixa e não puder me atender pois está falando ao telefone. Mesmo que não haja outro vendedor disponível; mesmo que ela esteja só combinando o programa de logo mais e seja míope: a fila cresce atrás de mim e ela não enxerga. Fecharei os olhos, respirarei fundo e procurarei não me sufocar com a espuma da minha boca e as labaredas do meu nariz. E, juro! na loja de sapatos, quando pedir sandália vermelha de verniz com salto, número trinta e seis e a atendente trouxer tênis branco, sem salto, número trinta e nove. Prometo! Nem que minha voz saia espremida e baixinha, direi: ‘não, querida, não é exatamente esse produto’. Mesmo que sapateie e exploda na rua, em seguida.
Em treinamento desde o final das últimas eleições, conto dominar e erradicar esses três aspectos negativos da minha boa alma. Acredito poder subir com galhardia o pódio dessa contenda particular no final do ano. Diz meu analista que a gente só não consegue vencer fantasmas da nossa personalidade. Quando lhes damos cara e nome, eles se materializam e fica mais fácil combatê-los. À luta, pois. Tenho trezentos e tantos dias para vencer.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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