“Seja senhor da tua vontade e escravo da tua consciência”
Aristóteles, filósofo grego
Assim como quase todo mundo, fiquei chocado quando o papa Bento XVI decidiu renunciar. Primeiro, porque papas não renunciam. Os precedentes eram raríssimos: apenas três em quase dois mil anos de história. A última delas acontecera em 1415, quase um século antes de Pedro Álvares Cabral “descobrir” o Brasil. Segundo, porque o severíssimo e conservador cardeal Joseph Ratzinger, o todo-poderoso comandante da Congregação para a Doutrina da Fé que tinha se tornado Bento XVI, parecia ter se preparado e esperado a vida toda para ocupar o trono de Pedro. E então, de repente, no meio de uma cerimônia de canonização acontecida em meados de fevereiro de 2013, quase matou bispos e cardeais de susto ao avisar que no dia 28 do mesmo mês renunciaria.
Assim foi feito, para espanto geral. Um conclave foi convocado para começar em 12 de março e o mundo ficou à espera de quem seria o novo papa, a maior autoridade espiritual para mais de 1 bilhão de pessoas e sempre um dos líderes políticos mais influentes de qualquer época.
Foi no final da tarde de quarta-feira, 13 de março de 2013, que a fumaça branca escapou pela chaminé da capela Sistina indicando que um novo papa havia sido escolhido. Pouco depois o cardeal francês Jean Pierre Tauran aparecia na sacada principal do Palácio Apostólico para anunciar, aos milhares de fiéis ali reunidos e aos milhões que acompanhavam tudo pela TV mundo afora, quem fora escolhido. “Anuntio vobis gaudium magnum: habemus papam”, disse, em latim, como reza a tradição. Um certo cardeal Jorge Mario Bergoglio, que quase ninguém de fora da cúria conhecia, era o novo líder espiritual dos católicos. E decidira se chamar papa Francisco.
Foi uma explosão de novidades. Bergoglio tornava-se o primeiro papa jesuíta da história. O primeiro a escolher o nome Francisco. O primeiro não-europeu em mais de 1200 anos. O primeiro nascido no continente americano. E, para completar, ainda era argentino. “Vós sabeis que o dever do conclave era dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais tenham ido buscá-lo quase ao fim do mundo... Eis-me aqui”, brincou em seu primeiro pronunciamento público.
Desde então, as surpresas se multiplicam. Se como cardeal levava uma vida simples em Buenos Aires, morando sozinho num pequeno apartamento onde preparava a própria comida e usava o transporte público, Francisco mostraria que não estava disposto a ceder em seus hábitos e convicções após ser escolhido sumo pontífice. A sua recusa em usar um crucifixo de ouro, tradicional símbolo papal, preferindo um muito mais modesto, de metal, foi um claro sinal. A decisão de ir pessoalmente pagar a conta do hotel onde ficara hospedado durante o conclave - sua imagem de batina branca, na recepção, “fechando a conta”, parecia inacreditável. O uso de carros populares no lugar das limusines blindadas e a decisão de continuar morando na Casa Santa Marta, dentro do Vaticano mas infinitamente menor e mais simples do que os suntuosos aposentos do Palácio Apostólico, foram apenas alguns de seus movimentos iniciais.
Se os atos e gestos vinham carregados de simbolismo, o discurso em nada ficaria atrás. Tratou abertamente a questão dos homossexuais e deixou claro que a Igreja precisa acolhê-los; ressaltou a importância da participação das mulheres na vida religiosa e relativizou a questão do celibato, lembrando que é uma questão de tradição e não, dogmática. Foi a Jerusalém e, respeitosamente, visitou lugares sagrados para o judaísmo e o islamismo. Em Istambul, não apenas se reuniu com Bartolomeu I, patriarca da Igreja Ortodoxa de Constantinopla (também católica, mas separada da igreja de Roma), como baixou a cabeça em sinal de reverência. Criticou duramente os religiosos envolvidos em casos de pedofilia e pediu perdão para as vítimas. Criou ainda uma comissão para depurar o IOR (Instituto das Obras Religiosas), o Banco do Vaticano, e afastou os membros da cúria acusados de corrupção.
Na semana passada, em sua “mensagem de Natal”, num gesto carregado de enorme significado, fez uma profunda autocrítica. No duro discurso, Francisco exortou os cardeais a abandonarem as rivalidades, as calúnias e as intrigas. Tudo isso textualmente, sem rodeios. No total, citou 15 “doenças” da cúria, como o “alzheimer espiritual”, a “esquizofrenia existencial”, o “exibicionismo mundano”, o “narcisismo falso”, as “rivalidades pela glória” e o “terrorismo do falatório”. Essa última, uma claríssima alusão às disputas internas de poder no Vaticano, sempre marcadas por intensas fofocas que levam, segundo Francisco, à “destruição de reputações”.
A todos e, mais diretamente, aos cardeais, o papa pediu que aproveitassem o Natal para reflexão, penitência e confissão. “É preciso visitar os cemitérios para ver os nomes de tantas pessoas que se consideravam imunes e indispensáveis”, vaticinou.
É um grande conselho, vindo de um grande homem, protagonista de grandes gestos e ações. É preciso se vangloriar menos e fazer mais. É preciso acumular menos e dividir mais. É preciso fazer autocrítica e perceber os próprios erros para que se possa, então, corrigi-los. É um sábio ensinamento, que serve para a presidente da República que insiste em ignorar a podridão que a cerca, para o prefeito incapaz de reconhecer graves problemas e de se desculpar por tantos erros, e também para cada um de nós, sempre tão falhos e imperfeitos. As palavras do papa são, antes de tudo, profundas e importantíssimas lições de vida. Obrigado, Francisco.
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN
email - jrneves@comerciodafranca.com.br
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