Disparidades


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Thomas não entende coisas básicas do relacionamento humano como evitar satisfazer necessidades fisiológicas perto de pessoas estranhas ou esperar com alguma paciência o preparo de sua próxima refeição: se tem fome, mostra a sofreguidão insaciável do perdido no deserto. Sente-se incomodado, chora. Não é imediatamente atendido, berra. Se tem sede, o adulto mais perto, que descubra. Se tem sono, fica chato, ranheta, coça o nariz. Se tem dor, chora diferente. Se está feliz, sorri: escancara a boca que, embora não tenha um dente sequer, faz a perna dos adultos bambear de tanta alegria. Falta muito para Thomas se tornar humano, no sentido de se incomodar com o próximo, ter empatia com ele, colocar-se em seu lugar. Nesse seu primeiro Natal, Thomas deverá ganhar presentes. Muitos. São muitos os tios, avós, amigos, primos, coleguinhas, vizinhos. Ninguém aceita ser o único a não presentear. E depois, sabe como é, o irmãozinho ganha, ele também deve ganhar. Os pacotes ficarão amontoados no canto da sala, esperando criar espaço na casa para serem guardados, depois que a farra de abri-los terminar. Jogos que não saberá como funcionam; mais bichinhos coloridos com guizos, mais roupas, mais um monte de coisas inúteis, tudo um a mais entre tudo que ele já tem e nem conhece. Para Thomas, embora seja o primeiro de sua vida, o Natal não terá, nem fará sentido algum diante dos seus oito meses. 
 
Lucas tem 8 anos recém completados. Hesita entre acreditar ou não na lenda do Papai Noel - os pais incentivam. Nas festas da escola onde estuda, que acontecem nos dias anteriores à data - quermesses, apresentações de música e dança, teatros - a presença de Santa Claus, ou Father Christmas - é fundamental. Colocam-no em barraca decorada como gruta, recebe cartas, conversa com as crianças, dá conselhos. Cria-se tanta magia em torno dele que fica difícil não acreditar. Na contramão dos sonhos estão os amigos poucos meses mais velhos, poucos meses mais novos - que já perderam a inocência e acham ridículo acreditar nessas bobagens. 
 
Lucas frequenta escola pública inglesa para onde também vão anglicanos, católicos, batistas, muçulmanos, budistas, xintoístas, ateus. Se os muçulmanos contestam Cristo - aliás conseguiram que sua figura, num país cristão, durante a festa que comemora seu nascimento, ficasse restrita a igrejas católicas - não contestam Papai Noel. Negam alguém que existiu, admitem cultivar um ser fictício. Na véspera de Natal Lucas preparará a mesinha para quando Papai Noel descer pela lareira com elfos e renas, seus ajudantes. Depois irá dormir e na manhã seguinte encontrará mil e tantos presentes enviados por tios, avós, primos, padrinhos - que não se contentam em dar um só, ou absterem-se, e que por ora estão espalhados sob as camas, dentro de inchados armários, atrás das portas, amontoados em quartos que ninguém usa. A mãe se desespera: como criará espaço para guardar o excesso? 
 
Natal é data inestimável para lojistas e comerciantes. A despeito de toda magia, beleza, colorido, despertar de bons sentimentos e eflúvios provocados pelos enfeites, bolas coloridas, pingentes e excesso de luzes, lá no fundo da gente comum insiste em permanecer certa dor provocada pela desigualdade, pela impossibilidade, pela injustiça. Para cada brinquedo que Thomas não abrir, haverá uma criança sonhando com ele. Qualquer um. Para cada jogo que Lucas desprezar, por certo haverá uma criança para quem o mimo faria diferença. 
 
O mundo é injusto, justifico. Pode-se acabar com a pobreza, mas a miséria da ignorância exigirá muito mais que décadas de educação, acredito. Todavia, se houvesse mais boa vontade e menos ganância; mais braços para dar, que para receber; mais mãos para ajudar, que para tomar, talvez pudéssemos fazer o Natal de verdade. Um big Natal que impedisse adulto de matar crianças; que exigisse saciar a fome de todos; dar um abraço em quem chora e secar as lágrimas de quem sente dor.
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 
 
 

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