Trégua


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Quadro desolador. Jovens soldados nas trincheiras, neve caindo, frio, arame farpado, lama, barulho de tiros. Filme? Não, não era filme. Soldado muito jovem olha o último biscoito na sua lata de mantimentos, alguém o chama e lhe entrega pequeno pacote que ele abre e de onde tira foto de mulher e um chocolate em barra. Sorri. A cena seguinte mostra novamente a paisagem de devastação, triste e escura fora da trincheira: neve amontoada, cercas de arame - algumas inteiras, outras inteiramente destruídas - visíveis ruínas ao redor, buracos. Confirmado, cenário de guerra. Passarinho colorido inopinadamente surge na paisagem desoladora, se movimentando sobre galho de árvore seca tombada. Então o coro de poucas vozes masculinas entoa música que, embora irreconhecível nos primeiros compassos, é a mais popular canção de Natal do mundo. Cantada em alemão? Em seguida, sobreposta em inglês? Guerra? Destruição? Neve? Soldados? Noite Feliz? Vozes: dezenas, centenas. Quantas? 
 
A memória humana é prodigiosa. Meu mundo parou naquele instante. Voltei para o passado, vi-me com seis anos sentada no colo de meu avô materno ouvindo, com olhos esbugalhados, o que ele me contava sobre a incrível trégua de Natal na Primeira Guerra Mundial, fato considerado um dos mais surpreendentemente tocantes dos capítulos da história humana. A Guerra iniciada em 1914 - cujo estopim foi o assassinato dos duques Ferdinando e Sofia, herdeiros do trono do Império Austro-Húngaro - é considerada a mais sangrenta e devastadora de todas as guerras - terminou em novembro de 1918. Arrasou a Europa e resultou no horrível saldo de cerca de 10 milhões de mortos e outros milhões de feridos ou incapacitados. 
 
Meu avô contava que, no início, o orgulho dos combatentes era visível de ambos os lados, mas depois vieram as chuvas que provocava lamaçal que dava nos joelhos. Vieram os ratos, que nem distinguiam mais os mortos dos feridos ou mesmo dos vivos. Vieram os piolhos, as saudades de casa, dos familiares, a iminência da morte, a própria visão da morte. 
 
Diz a lenda que em algum lugar de Flandres, na Bélgica, em 24 de dezembro de 1914, aconteceram as primeiras confraternizações entre soldados inimigos no Natal daquele ano. Ao longo de toda a frente ocidental - que se estendia do mar do Norte aos Alpes suíços, cruzando a França -, soldados cessaram fogo e deixaram por alguns dias as diferenças para trás. Começou quando o primeiro alemão cantou alto e sozinho Stille Nacht, Heilige Nacht e foi seguido por outro e mais outro. Na trincheira inimiga, perto dali, um primeiro inglês cantou Silent Nigth, outro também. Formaram imenso coral nas duas línguas, o que permitiu que tomassem a ousada iniciativa de sair das trincheiras e se aproximarem uns dos outros. Foi assim que trocaram presentes - tabaco, chocolates, vinho, carne enlatada, sabonete; cortaram cabelos uns dos outros, jogaram futebol, andaram de bicicleta. Depois, voltaram às trincheiras e à estúpida guerra que, na verdade, ninguém venceu.
 
Vovô contava essa história para me falar do verdadeiro sentido de Natal, percebi. Não é época de perder o juízo com compras e comidas, correr sem saber o destino. Natal é para dividir. É essa a mensagem. Dividir Amor, Companheirismo, Paciência, Tolerância, Carinho. Dividir a ‘barra de chocolate’, o ‘vinho’, o ‘pão’, e para me mostrar o que acontece quando há homens de boa vontade na terra. Os comerciais ingleses, especialmente os veiculados na televisão, são excelentes. Antológicos, aqueles que promoveram as Olimpíadas de 2012. Espetaculares, os da linha de culinária da empresa Mark & Spencer. Todavia, de todos aqueles que se referem ao Natal, o mais bonito - opinião de expertises - é o comercial da empresa de multivarejo Sainsbury, que resgata a história das tréguas da Primeira Guerra Mundial. Estão todos disponíveis no Youtube. É só procurar.
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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