Houve tempo na vida de quem está há muito nas lides jornalísticas, que escrevíamos com medo. Não sabíamos se nosso texto sairia pelas metades, ligeiramente mutilado ou nem seria publicado. Patrulhamento. Mais temido que o redator-chefe, que corrige ou dá leve guaribada nas nossas palavras, reinava sobre tudo e todos o dono da tesoura, que cortava, sem dó nem piedade, palavras ou parágrafos que considerasse inconvenientes, revolucionários, temerosos, duplo sentidos, ou que pudessem ofender sensíveis olhos e mentalidades. Através de ótica míope e subjetiva, os censores suprimiam, eliminavam, encurtavam, desfaziam, anulavam, invalidavam — quando não abortavam — o trabalho duramente elaborado de tantos jornalistas e colaboradores.
Hoje não há mais censura — da que corta ou suprime o texto — mas volta e meia colunistas e cronistas de jornal, nos flagramos, ao escrever, a pensar no leitor que não digere — muito menos assimila nossos artigos — e, no espaço oferecido para que se expresse, ataca e devolve a raiva com palavras ácidas, venenosas. Poderia dizer que tal leitor constrange, mas não. Seguindo meu estilo, vou direto: no que me concerne, ele enche o saco! Arrisco-me a esquecer de escrever para outros que — mesmo discordes — são capazes de refutar-me com elegância e de forma inteligente.
Arriscada a novamente ser pichada de hipócrita, ingrata, xenofóbica às avessas, eis-me aqui a falar do que vi, do que senti, o que pude observar nas vezes em que saí do meu país e confrontei aqueles países visitados com o nosso. Do que poderíamos ter e não temos; do que poderíamos ser e não somos, porque o pouco que temos, somos ou andamos — acham aqueles leitores, já nos basta.
Não sou parlamentar, não estou envolvida com a votação sobre meta fiscal. Só frequento a Petrobrás quando ponho — e pago! — gasolina, não me pesa acusação de roubo. Não participei das delícias do mensalão, posso sair do país a qualquer momento. Como qualquer cidadão brasileiro decente que trabalha, comprei, paguei minha passagem e vim visitar filha e netos na Inglaterra.
Conheci Londres há cerca de trinta anos. Fiquei fascinada. Claro, chovia. Lembro-me de ter sentado num banco de madeira à beira do Tâmisa, pertinho da London Bridge, olhar perdido, ter sonhado com Oscar Wilde, Rainha Victoria, Ana Bolena, Henrique VIII, damas, lacaios, soldados. Lembro-me ter desejado morar aqui quando tivesse cumprido minha lista de expectativas de vida no Brasil. A língua que ouvia tinha sotaque cheio; pessoas que usavam transporte público tinham educação: cediam lugar a grávidas, idosos, deficientes. Ninguém furava fila. Nas lojas cada um esperava o freguês da frente ser totalmente atendido (e tirar suas compras do balcão) para ser o próximo. Podia-se atravessar ruas com segurança e, mesmo com a mão de trânsito invertida, era raro ouvir buzinaço, ou xingatório. Ninguém reparava ninguém, ninguém zombava de ninguém. Não existiam mendigos. Ou roubos.
Mas aconteceram Thatcher, depois Blair. Ela, para aguentar a política de ferro, abriu as portas da imigração. Ele, fez ouvidos moucos para as primeiras reclamações do povo nativo e deixou rolar. Em trinta anos, o povo inglês desapareceu de Londres, hoje Torre de Babel. É indiano por todo lado, africanos que formaram verdadeiros guetos nos bairros dos quais expulsaram os moradores. Do Leste Europeu há aqui mais nativos que nas respectivas capitais. Muçulmanos reclamaram da importância dada a ícones religiosos de Natal que não significam nada para eles: Jesus e Maria sumiram, substituídos por luzes coloridas e Papai Noel. Chegaram ainda portugueses, italianos, espanhóis e brasileiros que possuem dupla cidadania. Aquela Londres desapareceu.
Lição gratuita de história: qualquer governo — de primeiro ou terceiro mundo — que atue para exaltar, enaltecer, alimentar ou reforçar ego e vaidade do líder e acólitos, corre o risco de prejudicar aqueles e o país daqueles que trabalham para pagar as contas.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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