Rafarillo, o grande sucesso que nasceu de uma necessidade


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Os irmãos Valter e Clóves Cintra: trabalho duro e dedicação resultaram na bem-sucedida Rafarillo
Os irmãos Valter e Clóves Cintra: trabalho duro e dedicação resultaram na bem-sucedida Rafarillo
Empresas que começaram no fundo do quintal são recorrentes em Franca e quase uma marca do tipo de negócio que forma a cadeia do calçado na cidade. Passar dessa fase, conquistar o mercado e se manter nele é a parte ingrata da história. 
 
A Rafarillo por pouco não foi um açougue. Era a ocupação que um de seus sócios, Valter Cintra, 49, queria explorar após ficar desempregado em 1990, depois de passar por diversas fábricas como sapateiro. Junto com o irmão, Clóves, cinco anos mais velho, começaram a fabricar calçados por necessidade. O início hoje é lembrado com risadas, mas dos 30 pares iniciais que saíram para vender em Franca, voltaram com todos para a casa. 
 
Nascidos em Claraval (MG), de família pobre, repetiram o trajeto de tantos mineiros das cidades mais próximas na década de 1970: vir trabalhar em fábrica de calçados em Franca. Chegaram depois que o pai, Antônio, hoje com 77 anos, teve um princípio de infarto e não pode mais trabalhar no pequeno sítio.
 
Quase 25 anos depois, os dois estão preparando a sucessão. Vão dar lugar ao G-20, que é como, brincando, se referem aos planos de passar o controle para os filhos em 2020. Querem que Ana Flávia, 28, Rafael, 25, e Anne Helise, 24, filhos de Clóves, e Murilo, 24, Maikon, 21, e Mariana, 17, os três de Valter, continuem a trajetória que iniciaram.
 
Com 643 empregados em sua planta e mais mil indiretos, a Rafarillo, que tem no apresentador esportivo Milton Neves seu garoto propaganda, sobrevive às crises esporádicas que sacodem a economia, segundo Clóves e Valter com planejamento, apoio de equipes profissionais, funcionários valorizados e uma rede de clientes satisfeitos em todo o Brasil.
 
Abaixo, a entrevista que eles deram no show-room da fábrica, só ele três vezes maior que o cômodo de nove metros quadrados em que começaram a trabalhar. 
 
Vamos começar do início. Como a empresa surgiu?
Valter Cintra- Começamos um trabalho há 24 anos. A Rafarillo surgiu no fundo de um quintal, bem como aconteceu com várias empresas em Franca. Trabalhei em muitas fábricas e em 1991 decidimos, eu e meu irmão, fazer alguma coisa. Havia a vontade de ter o negócio próprio, mas no começo foi muito difícil. Quando começamos não era com esse nome. O Clóves já fazia alguns pares em casa, mas dava 30 por mês. Eu era cortador e fiquei desempregado. A ideia inicial era montar um açougue. Aí na casa dos pais, conversando, resolvemos montar um negócio.
Clóves Cintra - Trabalhei no Grupo Sândalo por 18 anos. Quando houve a desativação da Mackerly, vi que os proprietários estavam dispensando e pedi para ser dispensado. Tinha 20 pares de forma em casa e uma prensa na varanda. Comecei com um cunhado e foi engraçado porque fizemos 30 pares e fomos tentar vender. Não vendeu nada. Vimos que não seria fácil e ficamos até pensando se seria esse o caminho. Num almoço na casa do nosso pai, decidimos começar. Na casa do Valtinho tinha um cômodo de três metros por três metros. Lá passamos a trabalhar. 
 
Como foi iniciar uma atividade sem dinheiro ou experiência administrativa?
Clóves - Começamos em janeiro de 1991 e em março teve um bingo no estádio Lanchão. O Valtinho encontrou um amigo que deu dois bilhetes para ele e no dia 4 de março fui com meus dois filhos. Nesse dia eu ganhei um carro. Foi praticamente o começo de tudo. Meu filho estava sentado comigo, nem dois anos ainda tinha, e eu estava escutando o coração dele. Parece que estava entrando no meu ouvido. Falei para Deus naquela hora: ‘o coração do meu filho está batendo tão bonitinho! Ajuda! Precisamos desse carro para começar nossa vida (emociona-se)’. Quando cantaram a pedra, eu pulei no meio do estádio, que tinha mais de 35 mil pessoas dentro. Foi assim o começo da nossa história. Esse carro fez muita diferença. Vendemos e investimos na empresa. 
Valter - A primeira coisa foi criar o nome. Buscamos vários, mas acabamos juntando os nomes do Rafael, filho do Clóves, e Murilo, meu filho. A partir daí passamos a buscar o mercado, modelos, e fomos fazendo uns pares de amostra. Procuramos um vendedor, que é parente nosso, que está conosco até hoje. Ele saiu e já garantiu uma venda de 150 pares. As pessoas estavam gostando. Acreditamos na nossa história. Não foi fácil. Nesses 24 anos, durante muito tempo abolimos o futebol com os amigos, a diversão. A gente trabalhava todos os dias até 22, 23 horas. Todos os sábados. Aos domingos, depois do almoço na casa dos pais, a gente voltava para arrumar tudo para a segunda-feira. Nossa vida era essa.
 
E passada essa fase, quando foi que a empresa deu o salto responsável por estar como está hoje?
Valter - Demoramos 10 anos para sair do vermelho. Lembro os números que fechamos 2000, com as contas em dia, podendo pagar todo mundo, sem dever a ninguém. Depois disso acertamos as modelagens, começamos a participar de Francal, Couromoda, de outras feiras. O grande boom, no entanto, foi entre 2008 e 2009, quando compramos e viemos para esse prédio.
Clóves - Saímos de um barracão de 1.200 metros quadrados, no Jardim Paulistano, e viemos para um com 5.800 metros quadrados. Isso de área para a fábrica, porque a medida total é de mais de nove mil metros. Esse prédio era da Democrata. Na época de comprar, nós fazíamos 1.200 pares por dia. Lembro de ter dito ao Valtinho que seriam necessários pelo menos dois mil pares diários. Se ele vendesse, tudo bem. E foi uma tacada muito boa, porque esse prédio tem um astral muito bom. Todas as empresas que passaram por aqui sempre tiveram sucesso. 
 
Levando em conta a situação em que vocês estavam na época em que criaram a empresa, dá para falar que a Rafarillo nasceu de uma necessidade?
Valter - A Rafarillo nasceu de uma necessidade e essa necessidade fez buscar soluções. Produzir é difícil, mas mais difícil é colocar o produto no mercado e fazer ele ter aceitação. 
 
Você ficou emocionado quando falou do carro que ganhou e que não deu nem uma volta. Lembrando da trajetória de vocês, quando foi que veio a primeira grande conquista?
Valter - Em novembro de 2001, os dois tinham uns carros velhos e precisávamos dar uma melhorada. O Clóves tinha um Monza e eu tinha um Santana. Numa concessionária tinha duas caminhonetes verdes, bonitas demais e ficamos com elas. 
 
A empresa tem uma exposição em mídia nacional, com o apresentador Milton Neves, garoto propaganda da marca. Que tipo de retorno a empresa teve com marketing até hoje?
Valter - A gente vem numa caminhada muito legal. Me lembro que eu já cheguei a descontar cheque com agiota para poder comprar página de anúncio. Sempre acreditamos na marca e na propaganda. Sempre quisemos ter uma marca bem quista. E hoje ela é desejada e comprada. Chegar nesse ponto, não foi nada de sorte. Foi muito trabalho e investimento.
 
Vocês estão há muito tempo com a marca associada a um programa de esportes, que tem o público potencial da Rafarillo. É possível comentar aspectos dessa parceria?
Valter - Procuramos o Milton Neves para um contrato de um mês, que passou para três e hoje está perto de completar cinco anos. Quando fui fechar o contrato com ele, levei uma quantia em dinheiro e ele disse que aquilo pagava uma chamada. Era a verba que eu tinha. Levei um DVD institucional e ele passou num domingo. A repercussão foi imediata. Para se ter uma ideia, nosso site recebia menos de cem visitas num final de semana. Depois do primeiro anúncio, foram 2.600 visitas. Ele (Milton) é muito bom no que faz. Foi quando saímos de 1.400 pares para sete mil pares por dia.
 
Levando em conta a proporção que a empresa tomou, vocês ainda tomam todas as decisões, ou delegam isso para as suas equipes?
Clóves -Temos equipes muito profissionais. Nossos colaboradores são pessoas em quem podemos confiar, mas nosso dedo não falta. Passamos na produção vendo como está. Falamos que não queremos fazer um sapato; queremos fazer uma joia. Quando se consegue transmitir isso para a equipe, fica tudo mais fácil. Até 2005 eu estava direto na produção, como gerente, como comprador. Hoje comandamos equipes. 
Valter - Temos uma política de portas abertas, com acesso livre para todo mundo. Temos quatro alicerces que sustentam a empresa, que são o financeiro, com o Nelson, o Luiz, na produção, a Helena, no comercial, e com a Mônica, no recursos humanos. Essas quatro pessoas nos dão toda a segurança para tocar a empresa do tamanho em que ela está hoje. São fundamentais para termos segurança, para podermos ir para a casa e dormir. 
 
O que vocês oferecem aos seus funcionários que seja motivo de orgulho para vocês? Algo que vocês nunca tiveram como empregados.
Valter - Nós, na empresa, falamos em ‘família Rafarillo’ Temos uma proximidade muito boa com os funcionários e, apesar da hierarquia, há muita liberdade. Essa cozinha que temos é nossa, própria. Nós a montamos para oferecer qualidade ao funcionário e hoje ela é conhecida e respeitada em Franca. No outro prédio, as pessoas saíam no almoço para comer sentadas na calçada. Hoje elas comem dignamente, num bandejão, com qualidade. Fora isso, temos treinamentos, interação, festas em datas especiais. 
Clóves - São coisas que gostamos de oferecer. Uma máquina é fácil de comprar. Não temos mais a dificuldade que tínhamos no começo. Mas o ser humano, aquele coloca a mão na massa, está cada vez mais escasso. Tentamos valorizar o máximo possível porque sem eles a Rafarillo não teria chegado aonde chegou. Acho que precisamos fazer mais ainda.
 
Como empresários, que preocupação vocês têm hoje que não tinham como empregados?
Valter - Medo eu não tenho; tenho receio. A política do governo, a alta dos juros, que pode travar o mercado, oscilação do dólar, produtos chineses. Isso pode atrapalhar e muito o negócio. Sou muito otimista e trabalho sempre no ataque, na ofensiva. Temos que levantar a bunda da cadeira e buscar soluções. É fazer um ‘cadiquinho’ a mais que o concorrente.
Clóves - A inflação preocupa. Do jeito que está caminhando, não conseguimos repassar o aumento dos custos. Se o governo não controlar a inflação, ficará muito difícil para uma empresa ter êxito financeiro em Franca em 2015. 
 
Quais os planos para a empresa dentro de um médio prazo?
Valter - Nosso planejamento para os próximos cinco anos é preparar nossos filhos para assumirem a empresa, preparar a sucessão. Nossa intenção é ensinar a eles o que aprendemos nesses 24 anos, mantendo o que conquistamos. Daqui a cinco anos quero que meus filhos estejam dando entrevistas aqui.
Clóves - Nossa responsabilidade é grande. Porque se foi difícil começar, mais difícil ainda é manter. Temos 643 pessoas que dependem de nós diretamente e mais mil de forma indireta, com os terceirizados. 
 
Por fim, 20 anos atrás, vocês imaginaram chegar com a empresa aonde chegaram?
Clóves - É difícil medir nossa força, mas acredito no que faço. E quando se faz o que se gosta, você não consegue imaginar o limite. Acredito no trabalho, naquilo que a família representa. Nossas esposas, que nos ajudaram tanto (volta a se emocionar). Temos filhos maravilhosos e tudo isso foram conquistas feitas com honestidade. Para falar que eu pensava, digo que não. As dificuldades foram tantas que se parasse para pensar não continuaria.
Valter - Acredito muito em Deus. Acredito que quando você faz um trabalho honesto e com humildade as coisas voltam para você. Nunca pedi a Deus para chegar a sete mil pares por dia; nunca. Tenho foco e penso que preciso fazer hoje melhor do que foi ontem, e amanhã, melhor do que foi hoje. Por isso que o resultado é o que estamos tendo.

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