Dos quase dois séculos de festas de aniversário da cidade, participei de pelo menos cinquenta delas. Desfilei como estudante quando havia desfiles comemorativos no Centro da cidade; já paguei mico como rainha nem lembro mais do quê; vi o desfile barriguda de bebê. Não vou mais. Bem, me pergunto: ver o quê? Não há mais alunos que queiram participar dessas manifestações cívicas; não há mais escolas que queiram organizar desfiles e o sentimento de orgulho e patriotismo está por isso aqui, ó, para acabar.
Cantei o Hino da Franca, de cuja letra jamais gostei, ainda que escrita por meu mestre mais querido, Alfredo Palermo. Quando gosto da música fico o tempo todo, ao escutá-la, com o couro arrepiado e, ao ouvir nosso hino só me arrepio quando a letra fala da Juventude (‘memoremos bravura, pureza, beleza desta terra sem igual’); dos Seresteiros (‘evoquemos um pretérito imortal’) e das ‘tardes douradas’ francanas. A melodia é de Waldemar Roberto — que jamais conheci — bem sincopada e alegre como todo hino de exaltação.
Tenho um orgulho danado de ser francana. À parte as piadinhas de algibeira, clichezinhos tipo ‘você é franca mesmo?’. Fora a brincadeira com a falta da cedilha no endereço aonde a cegonha analfabeta deveria ter me entregue quando nasci; fora o mau humor de alguns que odeiam a cidade — mas não se mandam daqui —adoro essa cidade.
Adoro quando amanhece e o céu se tinge de rosa, verde-claro, amarelo, em mil e um tons. Adoro acordar cedo e ver trabalhadores e estudantes se dirigirem para seus respectivos trabalhos. Adoro o cheiro de café que impregna o ar francano das seis até oito da manhã e invade os corredores da minha casa quando é hora de sair da cama. Adoro o barulho que mistura sons de rádios sintonizados nas emissoras locais com preparativos na cozinha. Adoro quando escuto sirenes de aviso de começo de jornada, horário de almoço, de fim do período de trabalho. Adoro cantar Terra dos meus sonhos, adoro as festas da Patrícia, adoro a Patrícia.
Sonho com melhorias das condições de vida francana. Sonho com aeroporto que funcione. Com mais uma companhia de transporte que ofereça o trajeto Franca-São Paulo. Cinemas que exibam filmes legendados. Trânsito eficiente e fluente. Motoristas de carros educados e responsáveis. Uma bela livraria. Melhores instalações de locais de venda de verduras e hortifrutigranjeiros: mercado limpo, com amplo estacionamento, abarrotado de produtos especiais e de primeira linha. Mais caixas para atender nos supermercados. Um teatro municipal bem bonito, de acústica perfeita, super equipado, que fizesse inveja a Ribeirão Preto. E muito mais apoio ao maestro Nazir Bittar e para a Orquestra Sinfônica de Franca. Sonho em abrir o jornal e ler que a reforma tão necessária do Museu de Franca foi realizada e, concluída, tornou-o padrão para congêneres.
Tenho saudades do coreto, do caramanchão. Do clube dos Bagres. Do Gratinado e até da Colegial. De ver moços amontoados no Bar Tubarão, esperando mocinhas se dirigirem ao Cine São Luiz ou Odeon e irem atrás. Saudade das balas Pipper. Tenho saudades dos bailes e brincadeiras dançantes da AEC, do Laércio de Franca, do Superpanorâmico, e de ouvir o Tarcísio cantar.
Tenho esperança, porém, de continuar contando para meus netos as histórias de Franca, de tal forma que eles se entusiasmem e mostrem lá um dia para seus descendentes, que uma cidade é formada de cidadãos que a amam e que amar uma cidade é preservá-la, defendê-la; reconhecer-lhe potencialidades e defeitos e fazer o possível para torná-la melhor. Tarefa cumprida, sentar-se à soleira da casa e ser presenteada, especialmente no Inverno, com o mais lindo pôr-do-sol do planeta, ao som de Terra dos Meus Sonhos.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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