Corria o ano de 1989. Era uma vez dois moleques de 15 e 18 anos que amavam os Beatles e os Rolling Stones, além de Gil, Caetano, Chico, e decidiram formar dupla para apresentar música de ótima qualidade. Téti tocava violão e guitarra, Paulim — aluno do grande mestre Nelson — bateria e percussão. Tinham que escolher um nome para a banda: tinha que ser algo com sonoridade e ritmo. Paulim, o rei da gozação sugeria Gordo e Magro — aludindo a características físicas de ambos; alguém pôs na mesa Céu da Boca e Dentadura, foi noite memorável, como eram as noites em que eles, verdadeiro bullying, se cutucavam mutuamente. Téti foi para a Inglaterra estudar, ficou dois anos, isso não os separou. Paulim o visitou por lá, não deixaram a magia musical, que tomava conta deles quando estavam juntos, se esvanecer.
Época de faculdade, Téti foi estudar em São Paulo, Paulim ficou na cidade natal de ambos, e mesmo assim continuaram a se apresentar como dupla, embora formassem com outros músicos, outros grupos de excelente musicalidade. Volta e meia se encontravam na capital paulista para ensaiar e lá um dia começaram a se apresentar no bar Kingston, simpático bar da Faria Lima. Fizeram sucesso: a comunidade francana os descobriu e toda quinta-feira, aproveitando a presença de Paulim que frequentava extensão do curso de Direito por lá, eles faziam a noite francana para francanos na capital. Foram anos divertidos. Nesse ínterim Paulim se casou com Cássia e se tornou pai de André, por quem se tomou de amores.
Talvez a afinidade entre ambos fosse resultado da compatibilidade entre signos: Téti, Capricórnio e Paulim, Peixes, do dia 28 de fevereiro. Talvez a alegria deles adviesse da sintonia do humor fino e requintado de duas mentes brilhantes. Era comum, quando começavam a se apresentar, que executassem Have You Ever Seen The Rain — Creedence Clearwater Revival, emendassem com Cotidiano — Chico Buarque, canções que aparentemente nada têm em comum — para um ligeiro breque e o infalível diálogo: ‘Boa noite, Téti! Boa noite Paulim! Disposto? Feliz? Muito! Vamos embora? Vamos, sim!’ E aí desfilavam Raul Seixas, Beatles, Vanessa da Mata, Roberto Carlos, Gil. Sem preconceito, sem qualquer resquício de preconceito. Apresentavam-se para público heterogêneo em casamentos, batizados, bodas e eram cuidadosos em escolher as músicas cujas letras pudessem ter duplo sentido e eventualmente ofendessem os convidados do evento. Gravaram dois CDs e há um terceiro em andamento. Não ganharam Grammy, mas o reconhecimento dos fãs, que os prestigiavam e aplaudiam. Há momentos memoráveis: na época dos Mamonas, Paulim o mais tímido dos dois, inesperadamente fez um breque na bateria e começou a cantar Robocop Gay, com trejeitos e requebros. Ninguém entendeu como homofobia, mas como brincadeira: a dupla sabia os limites do divertimento e da maldade.
Não tem mais Téti&Paulim. Na madrugada de ontem Paulim foi embora de maneira súbita e inesperada, quem sabe para perto de dona Zuleica, sua mãe e de dona Leonor, avó. A cidade esteve cinzenta toda a manhã, como a lamentar tal partida, tão imprevista. A dor dos companheiros de música, amigos, pessoas ligadas às duas famílias é visível em cada rosto. E não há como rodar o mundo para trás e eliminar, adiar ou retardar o preciso instante em que o carro de Paulim foi atingido de frente por outro carro. Mais uma vez Cloto (que fia e tece o fio de cada vida humana), Láquesis (que enrola o fio) e Átropos (que o corta quando bem entende), as irmãs Moiras da mitologia grega responsáveis pelo destino de deuses e homens — deixam-nos tristes, chorosos e impotentes.
Vida de conciliação; mãos e sorriso que espalharam alegria; coração generoso que soube repartir e multiplicar: assim foi Paulim, que um dia fez dupla com Téti.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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