Desleixo


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“A civilização é o aperfeiçoamento do homem pela educação.”  

Adão Myszak, escritor
 
 
As pessoas estão ficando desleixadas. Ou é só impressão? A primeira vez que a tive foi quando comecei a ler, nos restaurantes à beira das rodovias consignadas, cada vez com mais frequência, o seguinte letreiro: “Não fique aí no carro; não faça cerimônia, venha como estiver!” E as pessoas aceitavam o convite.
 
Surgiam de dentro dos carros, dos ônibus de excursão quase como a natureza as fez, mal vestidas e mal penteadas, num desleixo quase total, intoleráveis! As mulheres descalças, ou com calças de toureiro imitando pele de onça. Os homens de camisetas, deixando à mostra todos os pelos das axilas e parte das costas e peito... E assim se debruçam sobre a pista de frios para encher o prato de azeitonas, palmito e rúcula. Às vezes, caem algumas gotas de óleo sobre os dedos, que ficam patinando ali na sandália de borracha... Uma delicadeza!
 
Pensei que a coisa ia ficando apenas nas beiras de estrada. Não, comecei a reparar que na cidade as cenas se repetiam. Repetem-se diariamente nos restaurantes, filas de banco, ruas, calçadas, lojas. E assim vão às farmácias, supermercados e cinemas. Aliás, nos cinemas o espetáculo é um caso à parte: chegam de bermuda, camiseta e sandálias, um enorme saco de pipocas engorduradas por maionese, e refrigerantes. Acomodam-se na poltrona, esticam as pernas e começa a comilança barulhenta.
 
Acho que certas pessoas deveriam ir presas por certos desleixos que contrariam a isso que chamamos de civilização.
 
As lojas e outras casas comerciais tiveram que entregar os pontos. É aceitar o freguês do jeito que ele é ou está, ou perder a clientela. Restaurantes que antes tinham letreiros sugerindo aos homens entrarem de gravata contentam-se agora pedindo que os homens usem calças. Para completar a impressão de repugnância, as bandejas com palitos estimulam os fregueses a limpar as belas dentaduras naturais ou postiças após o almoço. E lá ficam eles, numa tarefa interminável, cavoucando os dentes à busca de um pedacinho de carne ou couve. Quando acabam por remover o resto de comida, dão uma puxada de ar para terminar a tarefa. Uma fineza!
 
Mesmo em casa, na vida privada, será que não devemos exercitar alguma cerimônia? Para que havemos de nos vestir com farrapos só porque não temos visitas? Dizem que os ingleses usam roupas de rigor para jantar, mesmo quando estão nas selvas. Não estou sugerindo que cheguemos a este ponto, mas não há por que poupar as nossas camisas limpas somente para os grandes dias.
 
Há milhares de anos que a espécie humana vem tentando melhorar. Agora, de repente, parecemos sentir o impulso de voltar a Neanderthal. Estamos simplesmente tentando viver com excessivo conforto, quando o que na realidade precisamos é abotoar-nos para levantar o moral.
 
É claro, será muito fácil criticar este texto. Dirão que há coisas mais importantes para se pensar, como a fome na África, as guerras no leste europeu, as desigualdades sociais, o desemprego, a falta de água, as doenças... Mas se assim pensarmos, ou seja, numa atitude simplista de diante das misérias do mundo também nos tornarmos miseráveis, aonde iremos parar? 
 
Creio ser necessário manter um mínimo de higiene, educação, civilização enfim para estarmos bem e bem cuidarmos de quem necessita de nós.
 
Devemos cuidar de nosso interior no melhor estilo kaizen, da Programação Neurolinguística: “Tornar-me uma pessoa cada vez melhor”. Do mesmo modo, devemos cuidar de nossos aspectos não-verbais. Vista-se direito, física e mentalmente. Faça cerimônia, não venha à vontade. Venha melhor!
 
Vir melhor não é sinônimo de riqueza, de abundância, de afetação, de esnobismo. É uma questão de sensatez e educação. Simplesmente use o que há de melhor dentro de si e evite deixar os pelos íntimos à vista.
 
Por último, cuide de seu cheiro. Os usuários das filas de banco e dos ônibus urbanos agradecem.
 
Everton de Paula, acadêmico e editor 
email  - evertondepaula33@yahoo.com.br

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