O Batismo de Jesus e O Martírio de São Sebastião estão mais próximas dos olhos de quem as observa; A Transfiguração de Jesus, Nossa Senhora Aparecida e os Milagres e o conjunto da Via Sacra ganharam novas posições, e a nova vivacidade de São Bom Jesus da Cana Verde (Jesus e os Apóstolos), A Sagrada Família e Fuga para o Egito grita aos olhos. De maneira sintética, assim pode ser descrita a disposição e condição atuais do acervo de obras do artista plástico Cândido Portinari (1903-1962) que enobrece a igreja do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, principal templo católico da cidade de Batatais.
A presença artística do pintor é forte na região, já que ele nasceu em Brodowski, onde a casa de sua família se tornou um museu em sua homenagem. Mas é em Batatais que está o maior acervo aberto ao público de obras sacras do artista. A coleção, instalada entre 1953 e 1954, inclui 28 telas permanentemente expostas no local.
Os trabalhos em óleo sobre tela que decoram a igreja onde o próprio artista fora batizado sofriam com a ação do tempo, de cupins e de infiltrações e tiveram de passar por um minucioso trabalho de restauração que durou nove meses. Há 40 dias, a restauração foi concluída e o conjunto de preço incalculável ganhou nova expografia, sendo totalmente recolocado - e readequado - nas paredes.
“São mudanças propostas por especialistas que buscam valorizar ainda mais o nosso acervo sacro, facilitando inclusive a visualização para os turistas e para os fiéis”, disse o diretor de Turismo do município, Antônio Carlos Corrêa.
Baseado na movimentação de visitantes e turistas na igreja nas últimas quatro semanas, o guia da igreja, o policial reformado e filósofo Antônio Otávio Squarise, 63, no alto de sua experiência de 35 anos na função, estima que as obras sejam vistas por aproximadamente 4 mil pares de olhos por mês - número que, se confirmando, representará uma visitação 35% maior que o registrada tradicionalmente.
Impulsionam os números principalmente caravanas escolares e de associações, como grupos da terceira idade - predominantemente de cidades do próprio Estado de São Paulo. “Às vezes atendemos dois ou três ônibus inteiros de uma só vez, mas também fazemos atendimentos de famílias e até individuais explicando cada tela”, disse o guia.
Valorização
A herança cultural e histórica que Portinari legou a Batatais suscita a atenção logo ao se dar os primeiros passos na nave central da igreja. As 14 telas da Via Sacra - único conjunto da igreja tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico) do Estado (desde 1982) - prendem o olhar pela expressividade e talento com que foram narradas as cenas do trajeto percorrido por Jesus carregando a cruz do Pretório até o Calvário. O conjunto, antes disposto em corredores laterais do templo, agora reinam nas paredes do corpo principal.
Nas laterais internas do santuário há duas capelas. A da esquerda já abrigava O Batismo de Jesus - tela de mais de 8 metros quadrados que foi recolocada na parede um metro abaixo da posição em que ficava antes do restauro - e agora comporta também A Transfiguração. “Esta última ficava na sala do Santíssimo, mais para o fundo da igreja. Agora está mais destacada, mais fácil de ser visualizada. A altura das telas foi adequada ao campo visual de uma pessoa de altura mediana (1,65 m).”
Pela mesma razão, Nossa Senhora Aparecida e os Milagres, deixou uma capelinha da parte posterior do templo e agora pode ser vista na sala frontal, à direita de quem entra na igreja, compartilhando espaço com O Martírio de São Sebastião.
Mais adiante, à esquerda do altar principal, duas telas de quatro metros quadrados cada, A Sagrada Família e A Fuga para o Egito, são aperitivo artístico para a apoteose do altar-mor, onde está a mais ampla obra do artista na Matriz batataense: as cinco telas que formam o painel central Jesus e os apóstolos.
Fechando o acervo de Portinari em Batatais, um corredor nos fundos da igreja guarda outras duas obras - únicas não sacras - que retratam dois empresários de destaque que tinham relação próxima com o pintor.
A restauração
Sob a coordenação da artista plástica paulistana Florence Maria White de Vera, especialista em restauração de obras de arte, o ateliê De Vera Artes se incumbiu da missão de reparar os estragos causados por cupins e infiltrações nas obras. Por nove meses, uma equipe trabalhou em um ateliê provisório montado em um salão na igreja Matriz de Batatais.
Até que o trabalho de restauro começasse de fato, foram cinco anos de discussões. A Justiça determinou providências do poder público, a Prefeitura de Batatais viabilizou a verba de R$ 374 mil junto ao governo do Estado e o imbróglio chegou ao fim.
Em setembro passado, as obras de restauro foram concluídas e o acervo - que foi, em parte, responsável pela transformação da cidade em Estância Turística, em 1994 - está novamente intacto.
A visitação à igreja é gratuita e aberta ao público de terça a domingo. Agendamentos podem feitos pelo telefone (16) 3761-2489.
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