Oportunidades e genética


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À primeira vista parecia vídeo chato e específico de simpósio científico. De repente, a pergunta vinda do plenário: o que há de errado entre Mulheres e Ciência? A desproporção entre homens e mulheres cientistas é evidente, afinal de contas. Que diferenças genéticas repelem o interesse das fêmeas sobre a parte científica do conhecimento humano? Nesse momento, o único participante negro daquele encontro se manifesta. Diz que nunca foi fêmea, mas que tem sido negro a vida inteira e pede licença para oferecer resposta e perspectiva deste ponto de vista, pois vê similaridade no tema proposto e sua própria história, qual seja o acesso às oportunidades sociais que são dadas a negros e mulheres em uma sociedade dominada por homens brancos. 
 
Neil conta que desde 9 anos manifestou interesse pela ciência. Queria ser cientista astrofísico e percebeu que, ao expressar seu desejo, a maioria das pessoas reagia contra suas ambições: eram as raízes das forças que naturalmente agem na sociedade para bloquear, impedir, cercear, evitar mudanças sejam benéficas ou não. O perfil físico de Neil se aproximava mais ao de atleta: você não quer ser atleta? Preparador físico? professores sugeriam. Não. Ele sonhava com algo que estivesse além dos paradigmas das expectativas das pessoas que detinham o poder. Por sorte seu interesse era tão profundo e tão rico seu desejo, que as barreiras ao serem superadas, se tornavam mais e mais combustível para derrubar as dificuldades que surgiam.
 
Sofreu discriminação, acusações, conseguia superar os incidentes. Hoje, diz ele, cientista reconhecido, se permite perguntar: onde estão os outros que poderiam estar aqui, como eu? O que se passou para que eu tenha reagido e sobrevivido e outros não, apenas porque as forças da sociedade estavam resistindo a cada esquina, a todo momento? 
 
Assim, diz, minha experiência de vida me faz concluir que se não temos muitos negros cientistas e não temos muitas mulheres cientistas, isso se deve àquelas tais forças de resistência, tão reais, que controlam e evitam mudanças. ‘Façamos acontecer primeiro um sistema que gere oportunidades indistintamente iguais; aí sim, podemos falar sobre genética.’
 
Terminei o vídeo, pus-me a pensar. Esta semana lemos notícia de que 33% dos lares francanos são geridos pelas mulheres. Os outros lares são competência de quem? Do homem? Do casal? Quem compra, quem determina prioridades? Se existem, quem decide escola das crianças? Quem resolve impasses? Quem delibera sobre ir ou ficar? Quem opta por ir ou não à festa da Patrícia? Acho que há mais mulheres no comando dos lares — não só de Franca, mas do mundo — que a taxa apresenta. Questão de aceitar a realidade. 
 
Neil deGrasse Tyson: É cientista, divulgador científico e astrofísico americano, premiado por participação em filmes e documentários como Cosmos: a Spacetime Odissey e O Universo. É negro. Algumas frases antológicas dele: 
 
‘Sabemos, (...) de simples evidência empírica na história da ciência, que a pior forma de evidência é a de testemunha ocular.’
 
‘A coisa boa que a Ciência tem é que é verdade, quer você acredite quer não’.
 
‘Ninguém curioso é burro. As pessoas que não fazem perguntas permanecem sem noção ao longo de suas vidas.’
 
‘Passamos o primeiro ano de vida de uma criança ensinado-a a andar e falar, mas o resto de sua vida a se calar e se sentar. Tem alguma coisa errada aí.’
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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