Já ouviu falar nisso? Conhecido também como mal de altitude, essa síndrome quando pega você, quase arrebenta seu pulmão de tanta tosse, lhe dá mal estar geral — corpo e alma, faz você ficar tonto, ter dores de cabeça atrozes, náusea violenta e palpitações. Turistas que sobem pelos Andes afora são vulneráveis às manifestações que podem levar a edema cerebral. É mole ou quer mais?
Sabe o que dão para quem padece do mal? Folhas de coca para mascar, chá de coca para tomar, balas de coca para deixar derreter na boca, muita água, muita calma. Respirar fundo e pausadamente, cadenciada, pausadamente e fundo, aconselham, como se isso fosse fácil quando você tem que controlar intestino, rins, sua dignidade e a possibilidade de mandar tudo pelos ares e cair por terra. Esborrachar, literalmente.
Nunca tinha ouvido falar nisso — soroche — acho que não sou mais aquela turista previdente e precavida, que sabe das coisas, que antecede. Não me preparei adequadamente para a caminhada nos Andes. Ou achei que, deusa, estava acima de tais mazelas humanas.
O guia nos buscou no hotel às cinco horas da manhã: assistiríamos ao majestoso espetáculo do amanhecer, no topo das montanhas. Estava combinado. Irresistível. Veríamos gêisers em ação, salares, lagoas quentes: poderíamos até tomar banho nelas. Fiquei animadíssima. Cedinho assim, lagartos e lagartixas andinos ficam quietinhos, só aparecem quando o sol está a pino. Tinha tudo para curtir o passeio. Pois não é que quando o céu ficou azul, rosa, laranja, verde, o sol veio lambendo a terra detrás das montanhas — nunca vi nada mais lindo — cadê minha respiração? Buscava, buscava e nada. E quanto mais ficava aflita, menos conseguia oxigênio. Do jeito que subiu as montanhas, o guia desceu para me reconduzir ao hotel. Pediu que preparassem e me dessem o tal chá de coca, me deixou descansando, com as extremidades — pés e mãos gelados, o que disseram, é péssimo sinal.
Pelo resto do dia e pior — da viagem — permanecei inapetente, zonza, quase desfalecida. Naquele e nos dias posteriores não almocei, não jantei, nem tive ânimo para o vinho, os ceviches maravilhosos, não olhei o rico artesanato dos Andes. Não me animei a comprar uma agulha sequer... Creio, porém, que o quadro agravou quando tomei conhecimento de que as minas de cobre, ouro e estanho — que fazem parte da riqueza da terra latino-americana, são exploradas por japoneses e canadenses. Igual aos espanhóis e portugueses de antanho, eles vêm, extraem, pagam pouco, tratam-nos como colônias. Nada diferente do que fazem com a vizinha Araxá, na exploração do nióbio.
Certa vez, no México, visitei com amiga católica praticante o Santuário da Virgem de Guadalupe. Trouxe imagens, terços, quadros para amigos e parentes, que o padre se ofereceu para benzer. Pediu que os esparramássemos sobre a mesa da sacristia e orou, com tanta fé, que a lembrança do discurso ainda me toca. Nunca o esqueci. Pediu que os povos da América Latina se unissem, que fome e miséria fossem combatidas sem que fossem necessários lutas e derramamento de sangue entre irmãos. Que os comandantes dos países latino-americanos entendessem que tirania e opressão são maus conselheiros. E que, de mãos dadas, seguíssemos em busca da igualdade, da fraternidade e do amor.
Sei lá se foi o devastador efeito do soroche, mas de repente, tais memórias voltaram, na manhã seguinte ao conhecimento de que teremos pela frente mais quatro anos de governo petista. Metade do país continuará a trabalhar, a outra metade desfrutará das benesses. Que a esperança de honestidade, capacidade, competência, lisura, caráter, fim da impunidade cresçam e que as ameaças nem tão veladas assim de punição ao opositor, de censura e falta de liberdade caiam no vazio. O soroche passou. O medo ainda não.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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