Paralelos


| Tempo de leitura: 3 min
1945, fim da Segunda Guerra Mundial. Josef Mengele abandona Auschwitz, vai para Gross-rosen, antigo campo de concentração, foge da Alemanha. Passa por vários países, é acolhido pela Argentina. O Mossad (serviço secreto do governo de Israel) localiza Adolf Eichmann em Buenos Aires. Com medo, Mengele passa pelo Paraguai e foge para o Brasil. Conhecido também por Todesengel — O Anjo da Morte — era obcecado por manipulação genética. Em nome da ciência realizou experiências macabras, terríveis, bárbaras e desumanas com os detentos no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. O relato dessas práticas passa muito além dos limites da atrocidade. Da Argentina, Mengele veio para o Brasil. Dizem, morou em Serra Negra, Assis, Marília, Nova Europa, Poá e Bertioga.
 
Certo dia, falando sobre experiências de infância, uma conhecida contou sobre estranho hóspede que viveu por algum tempo no sítio dos seus pais, localizado em região erma de Minas Gerais. Bastante tempo atrás: calcula ter sido lá pelos primeiros anos da década de 50. O homem, meio grisalho, apareceu por lá, acompanhado por mulher loira, alta, que falava português, com algum sotaque, ela lembra, e por dois homens de pouco fala e bastante sisudez. O homem grisalho buscava hospedagem naquelas paragens, em casa que ficasse distante de cidades pequenas, quanto mais das grandes. Aquela casa mineira na roça era o ideal. 
 
Seus pais acharam esquisito mas, pessoas simples e com renca de filhos, confabularam e concordaram que o dinheiro que o doutor Miguel — assim apresentado — pagaria, ajudaria nas despesas. O carro foi embora, deixou o doutor Miguel para trás sozinho e naquele fim de mundo. Aos poucos ele entrou na rotina da casa, mas ninguém entrava no seu quarto, fechado o tempo todo. Ele mesmo o limpava e trazia baú de madeira e porta trancados a sete chaves. Quando começou a sair pela redondeza, ajudava os leprosos — muitos naquela região — ajudava as crianças da casa nas contas de matemática, aprendeu a falar o suficiente para se comunicar com a família. De vez em quando, recebia aquelas visitas que o haviam levado lá. Conversavam naquela língua incompreensível. Um dia, porém, foi levado embora às pressas, nem se despediu direito. Nunca mais ouviram falar dele. Muitos anos se passaram, a família veio morar em Franca e, em março de 1979, a mãe da minha conhecida viu a revista Veja sobre a mesa da sala, e se espantou ao ver a foto de um rosto na capa: era o sêo Miguel, ela reconheceu. A revista trazia, como reportagem especial daquele número, a notícia da morte de Josef Mengele em Bertioga, cuja causa estranhamente jamais foi descoberta: afogamento? Cãibras? Ataque cardíaco? Suicídio? Nunca se esclareceu. 
 
Mengele foi tema de filmes e personagem de livros, dentre eles Os meninos do Brasil, de Ira Levin — em que o médico da história — Mengele — consegue clonar Adolf Hitler. Em 1978 foi lançado o filme, com Gregory Peck no papel principal. Em 2013, a diretora de cinema argentina Lucia Puenzo produziu o filme Waldoka, no Brasil lançado como O médico alemão, no qual apresenta versão dos dias de Mengele no tempo em morou na Argentina, antes de ir para o Paraguai e Brasil. É emocionante. 
 
Argentinos são reticentes quando o assunto é recepção e tolerância aos nazistas no fim da guerra. Não contra-argumentam, porém, com o acolhimento de judeus antes e durante a mesma guerra, nem são hipócritas de desmentir os fatos. Quiçá desejassem reescrever aquele gesto que perdoava barbaridades cometidas em nome da pureza, da perfeição e de raça pura. 
 
Brasileiros sortudos! No domingo teremos a oportunidade de repensar o rumo da história, escolhendo quem possa promover educação, saúde, maior igualdade e nosso redirecionamento rumo à Democracia. Tal qual a mãe e o pai da minha conhecida, respiraremos aliviados quando o tsunami passar. Quem sabe? 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários