Precisei ir a Uberaba. Simples, mas necessárias providências de viagem: verificação do nível de combustível, calibração dos pneus e olhada nos documentos do carro. Sabe como é, carro de mãe é a casa da sogra. Todo mundo entra, todo mundo manda, todo mundo pede emprestado, todo mundo pega. Não fosse isso, era só pegar o carro e chispar, dispensando qualquer providência, de tão perto a cidade e fácil o transcurso. Chique: pode-se escolher rota. Hoje em dia, parece, todos os caminhos levam a Uberaba. Vamos por Pedregulho. Pista simples, menos congestionada, supúnhamos. Durante o percurso, as lembranças chegaram.
Na infância fiz esse mesmo caminho centenas de vezes. Os avós maternos e moravam em Uberlândia, perto de praticamente toda a família de minha mãe. Tios, tias, primos, primas, agregados e parentes dos parentes: podiam ser encontrados no centro e na periferia da cidade mineira.
Era assim: férias da criançada, feriados prolongados, datas festivas, Natal, passagem de ano, folguinha que fosse, lá íamos nós, de mala e cuia. Literalmente. Sem dispensar o frango na farofa e — fazia parte do sonho — duas ou três garrafas de Paulistinha; laranjas descascadas; bolo; sanduíches; bolachinhas caseiras.
Demorava chegar lá. Saíamos de madrugada de casa, o chofer de táxi já nos esperava na porta. Papai se despedia de cada um de nós, recomendava juízo, educação, cuidado, nos beijava, a gente até chorava, mas só até virar a esquina. Dormíamos mais um pouco, amontoados: crianças, mamãe, todas as malas e mais ou menos trezentos pacotinhos. Tudo junto. Levávamos presentes para os avós, tias e primos, mudas de plantas, doces, tecidos para as costureiras da família ajudarem a nos confeccionar roupas. Bagagem e tanto.
Passávamos por cidades pequenas, bem menores que a nossa, o que nos fazia acreditar que Franca era megalópole, quase do tamanho de São Paulo que não conhecíamos, só imaginávamos. De longe reconhecíamos Igarapava: era onde esperaríamos o trem de ferro, que nos levaria ao destino final. O chofer ajudava mamãe, porque nós não éramos de grande valia no afazer. Organizava os pacotinhos, nos acomodava e voltava para Franca. Como de rotina, hora de lavar as mãos e aproveitar o frango com farofa e complementos rapidinho, hora do almoço. O trajeto de Franca a Igarapava, inacreditável, durava de três a quatro horas, se não furasse pneu, ou o tempo colaborasse permanecendo seco. E esperar. Com sorte o trem não se atrasaria e chegaríamos a Uberlândia por volta das dezoito ou dezenove horas. Sem sorte, o trem se atrasava uma, duas, cinco ou até sete horas. A comida acabava, a gente brigava, a paciência de minha mãe ia para as cucuias e ela nos punha de castigo. Já chegamos em Uberlândia depois da meia noite quando, além d
o atraso, o trem quebrava de dez em dez quilômetros... De qualquer forma era maravilhoso botar a cara pra fora da janela quando escurecia e ver as fagulhas da Maria Fumaça passando rapidamente pelos nossos rostos lisinhos, queimando-nos roupas. Jamais, nossos olhos.
Era lindo passar pela ponte de ferro do rio Grande, que divide Minas e São Paulo. Mamãe sempre referenciava o cenário de lutas, quando os dois estados brigaram feio durante a revolução de 32, ano distante, antes de Cristo, acreditávamos. O trem parava em Uberaba — metade do caminho para Uberlândia, e em estações menores, passando por cenários bucólicos e românticos.
De súbito, voltei à realidade: não havia chegado a Uberaba nas minhas antigas lembranças, mas já estava em frente ao prédio que o moderno GPS indicava como destino final. Em duas horas e pouquinho fui e voltei, percorrendo caminho antigo que demandaria seis, sete horas no passado. Sem mamãe, irmãos arrelientos, guaraná, laranja descascada ou frango, a presente viagem não teve o menor charme.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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