A iminência da inauguração da feira de calçados em São Paulo movimentava a cidade, fábricas de calçados e profissionais da área. Dentro dos escritórios já circulavam listas com nomes dos funcionários destacados para ir; o setor de criação finalizava suas obrigações; os modelos escolhidos para serem exibidos e comercializados já se encontravam polidos e escovados dentro das caixas, protegidos dos olhares curiosos, prontos para serem transportados tal qual cargas preciosas e secretas. A logística de transporte e hospedagem nos hotéis quase pronta: os recursos humanos entregavam listas para representantes comerciais e funcionários de escritório responsáveis pela exportação, mercado interno. Carro de quem irá e quem irá no carro de quem? Nos hotéis, quem ficará com quem? E foram todos para São Paulo, deixando para trás cônjuges chorosos, enciumados, desconfiados, cabreiros.
Às vezes acontece de algum calçadista ter apartamento na capital. Foi assim que um filho de dono de fábrica convidou dois companheiros para se hospedarem com ele e os pais, no apartamento da família, na capital paulista. Um, conhecido de longa data o outro, não. Ocupariam um quarto e o outro seria dos pais, que também estavam envolvidos com a feira. Como trabalhariam o dia todo e sairiam muito cedo, não perturbariam, não seriam perturbados e ninguém invadiria a privacidade de ninguém. Talvez nem se encontrassem. O rapaz mais novo, recém-casado, deixou a esposa triste, insegura e chorosa, naquela primeira separação significativa e dolorida. Mesmo assim ela fez sua mala, mil recomendações, mil pedidos. E ele foi. Também aos pedaços.
De fato, durante a estadia de cinco dias, as duas turmas não se encontraram. Viam-se no pavilhão de exposição, no estande da fábrica que representavam. Dentro do apartamento sabiam da existência de outros ocupantes, através de indícios. Alguma coisa na pia para lavar; no varal da área de serviço toalhas de banho de todos eles postas para secar e uma ou outra peça que tivessem lavado durante o banho.
Na noite anterior ao último dia de feira, o hóspede mais novo resolveu dormir com os companheiros de turma no hotel: iam jantar para comemorar e ‘bebemorar’ principalmente, tinha medo de incomodar o casal, se chegasse mais tarde. Como não voltaria mais ao apartamento, pediu que recolhessem sua toalha e roupas no varal, embrulhassem no caso de estarem úmidas, pusessem o pacote na mala e a levassem para o pavilhão, de onde sairia, mais tarde, de volta para sua cidade.
Fez a viagem na maior ansiedade, chegou feliz, alegre, morto de saudade. Sua esposa o recebeu com flores e carinho. A separação lhes fez bem. Até que ela foi desmanchar a mala. Tirou as roupas usadas, as sem usar e o saco de plástico com as roupas do varal. Quase desmaiou de susto. Enrolada na toalha, achou uma calcinha preta, de lycra, lisa, dessas sem o menor charme. Engoliu seco, embora de suas ventas saíssem faíscas. Pegou a calcinha e levou para seu escritório. Uma companheira, mais prudente, lhe aconselhou calma. Outra disse que homem é assim mesmo. Outra, ainda, vaticinou: é a primeira de muitas. E a mais cruel garantiu que apenas modelos — só faltou acrescentar estonteantes — usam calcinhas assim pois elas não deixam marcas nas roupas.
Ligou para o marido, esbravejou, ele se descabelou, jurou inocência! Desesperado, contou para o filho do patrão, seu amigo, que tentou ajudar. Embalde. Ele também não entendia o misterioso aparecimento da calcinha preta naquela mala. Até que conversou com sua mãe, co-hóspede do apartamento, que esclareceu: era dela. Ao pegar suas roupas, no varal comunitário do apartamento, ainda em São Paulo, sentiu falta da peça. Estava justamente tentando entender. Se recebeu de volta a calcinha preta? Não. Nem vai. Ela deve ter virado um monte de farrapos.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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