O voto é instrumento civilizado de construção política, não um ingresso para um espetáculo
A palavra sufrágio também significa voto. Mas aponta para outros sentidos: rezar ou dar esmolas, fazer caridade, orar em favor da alma de alguém... Interessante, não é mesmo? A depender da forma como candidatos pedem votos aos eleitores pelas redes televisivas ou mídia impressa, eles não se importariam em receber um voto a título de esmola ou caridade, desde que fosse o necessário para elegê-los. Salvo raras exceções de candidatos realmente comprometidos com um bom e saudável programa político, de confirmada exequibilidade e com objetivos definidos, visando ao bem-estar da população de sua abrangência.
No Brasil, o primeiro exercício do voto de que se tem notícia parece datar de 1532. Teria ocorrido na Vila de São Vicente, sede da capitania de mesmo nome, convocado por seu donatário Martim Afonso de Souza, visando a escolher o Conselho administrativo da vila. Eram votantes os chamados “homens bons”, expressão ampla e ambígua que designava, de fato, gente qualificada pela linhagem familiar, pela renda e propriedade, pelos modos e costumes que exercia na sociedade da época. A expressão “homens bons” passou, posteriormente, a designar os vereadores eleitos das Casas de Câmara dos municípios, até cair em desuso. Afinal, eles iriam colocar em prática as diretrizes da ética, da moral, das bondades.
E aí, leitor, alguma comparação com os dias de hoje? Progredimos ou regredimos? Todos, indistintamente, terem direito a voto é avanço ou retrocesso? Do outro lado da moeda, qualquer cidadão com qualquer formação acadêmica (ou até mesmo sem), maior de idade, brasileiro, em dia com o mínimo da chamada “ficha limpa”, poder ocupar um cargo elegível é bom ou pode ser tema de debate? Leve-se em conta que o Brasil que já votou num rinoceronte para cargo público no Rio de Janeiro (o Cacareco, lembra-se?), vê-se hoje livre para votar em palhaços e em malufes. Tanto faz, perdemos a referência; é como time de futebol: ganhando ou perdendo, gol roubado ou vários ilícitos no campo, na porrada ou literalmente sobre o sangue do adversário, esse é meu time de coração. Nem vem que não tem!
Insulto à democracia, é o retrato fiel do voto hoje no Brasil. Os “homens bons” passaram a ser qualificados como elite; e partidos de esquerda, notadamente se ocupam o governo, desprezam-nos e promovem os eleitores livres da base da pirâmide social com toda sorte de benefícios em troca do voto e da permanência no poder. Aí predomina a quantidade, em prejuízo da qualidade, Haja vista a lei das cotas raciais universitárias, proibidas onde se exige absoluta excelência como no ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) e no IME (Instituto Militar de Engenharia). No melhor estilo Casoy: “É uma vergonha!”
A existência dos períodos ditatoriais, como entre 1937 e 1945 e entre 1964 e 1985, eliminou muito a abrangência da participação política dos cidadãos na escolha de seus representantes no regime. A restrição histórica à participação de boa parte da população na escolha de seus representantes através do voto fez com que o sufrágio universal estabelecido na Constituição de 1988 ganhasse uma enorme importância. “Diretas Já!”... E o povo ganhou as urnas. A classe média, promotora das artes, educação, cultura e ciências passou a ser vista pelos partidos de esquerda, como alvo a ser extinto, a ser mesclado com classes sociais inferiores. É o que ocorre geralmente em regimes opressores frente a uma classe dotada de consciência crítica - A e B são pragas; de C em diante são votos manipuláveis. É claro, sem generalizações. Há situações pontuais que contradizem esse pressuposto.
Mas o homem político brasileiro, o candidato, é incorrigível. Fruto de uma organização social, cultural, civilizatória própria da América Latina, tende ao populismo e, aos poucos, vai configurando um perfil de eleitor que se vende por um par de dentaduras, por uma bolsa família ou por uma vaga na faculdade. E o voto banalizou-se. Perde a sociedade aquela fatia de excelência no processo de escolha de homens públicos e nos bons serviços que estes poderiam prestar à nação.
Qual é o mérito? Nenhum. E a vergonha, onde está? Na cadeia, denunciando outros corruptos em troca de uma penalidade menor!
Everton de Paula, acadêmico e editor
email - evertondepaula33@yahoo.com.br
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