Teias


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Franca, anos 60, quase 70. Sêo André Haber tinha armazém no antigo Mercado Municipal — espaço hoje ocupado pelo Terminal Rodoviário — onde anteriormente havia outro mercado, este de estrutura de ferro e vidro, modelo lá do começo do século XX. Ele comercializava gêneros alimentícios que a gente comprava e eram anotados na caderneta amarela. Todo final de mês o total era puxado e nossos pais, assim que recebiam os salários, pagavam religiosamente. Arroz, feijão, salame, sardinha, bacalhau, azeitonas, molho de tomate, latarias. Não existia supermercado. Ele morava com a família na Couto Magalhães, nas imediações do Mercadão. A família Junqueira Maníglia, também. Era comum, ao sairmos cedo de casa, encontrarmos sêo André passando pela nossa porta, em direção ao armazém. Havia troca de cumprimentos e seguíamos, cada um o seu, tanto o caminho, quanto as atividades do dia. Quanto a vida.
 
Casei, mudei, e voltei para a casa da Couto Magalhães com filha e outro na barriga. Encontrava pelas manhã, sêo André a caminho do armazém e ele, às vezes, contava uma ou outra novidade. Pedi-lhe que, quando pudesse, me vendesse barris de carvalho daqueles, onde ele armazenava azeitonas na salmoura e as pescava com imensa concha de alumínio, que tinham cinturão de ferro à volta do seu bojo: queria plantar palmeiras neles. Ele me deu dois. Um dia, sorriso ainda maior, parou, contou emocionado que o filho, Marcos, entrara na faculdade. Em Ribeirão Preto! Um sonho! Tornei a mudar de lá, perdi sêo André de vista. Os barris de carvalho, com exuberantes palmeiras, reavivavam sua lembrança e não me deixavam esquecê-lo. O Mercadão foi posto terra abaixo. 
 
Muito tempo depois, voltei a lecionar: filosofia para alunos do primeiro grau. Segundo ano de atividade, consolidei fama de professora boa praça mas brava, que não deixava passar erros, não admitia frescuras e exigia cumprimento de tarefas. 
 
No começo do segundo ano de atividade, entro na sala, me apresento, pergunto se os alunos já tinham ouvido falar de Filosofia. Raul — depois soube seu nome — se levanta e na maior animação disse que já, sim. E o que você ouviu? ‘Que Filosofia é uma bosta!’ ele afirmou. A classe veio abaixo, junto comigo, de tanto rir. Raul ficou comigo por quatro anos. Cumpria todas as tarefas, nunca deixou nenhuma para trás, me convidava para seus aniversários. Terminou o curso afirmando que sim, Filosofia era uma bosta, mas que ele adorava a professora. Raul, um dia soube, era filho de Marcos, neto do sêo André. Cláudia, sua mãe, era prima de duas grandes amigas, neta de d. Leonor, companheira de fé de Ritinha, minha avó. Éramos próximos na grande família universal. Muita água rolou: tive mais filhos, nasceu Caio na família de Cláudia e Marcos, tornei a mudar de casa, não leciono mais, Raul foi para São Paulo, graduou-se em engenharia. Um dia, já universitário, faz tempo, veio me ver. Ficamos ambos emocionados.
 
Recentemente, minha filha e seus filhos que moram distante vieram nos visitar. O menor chegou com indicação de frenuloplastia. A pediatra indicou profissional, corroborado por outros. Procurado, seu sobrenome me soou familiar: Haber. A cirurgia foi feita, sucesso total. O jovem médico mereceu elogios pela competência, pela atenção com o paciente, com a paciência com a mãe do bebê. E a teia da vida se fez perceptível: Marcos é irmão de Raul, filho de Marcos, neto de sêo André. Ninguém sabia, mas o encontro dele com meu neto, na verdade era o reencontro de várias gerações. 
 
Raul é profissional bem sucedido, considero semente que plantei e germinou. Outras plantas, como as palmeiras, foram para o chão. E os barris de carvalho, mesmo feitos para serem centenários, quem diria, se desmancharam. 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - lúciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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