Maruge


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O Quênia até recentemente era país africano famoso por seus safáris; reservas de vida selvagem; verdes parques nacionais; paisagens agrestes e desérticas onde se misturam a visão da secura da terra e altas montanhas cobertas de neve; maravilhas naturais como o Lago Vitória, segundo maior lago de água doce e maior lago tropical do mundo. Recentemente virou foco de atenção por causa de Barack Obama — atual presidente dos Estados Unidos e seu mais famoso descendente. País de contrastes, tem a maior economia da África Oriental e Central. A capital Nairóbi é centro comercial regional. Membro da ONU e da CAO (Comunidade da África Ocidental), possui cerca de 45 milhões de habitantes. Colônia inglesa desde 1890, durante anos sofreu larga exploração de suas terras ricas em minerais preciosos — ouro, principalmente — e de cobiçados recursos naturais: madeiras e especiarias. Durante a década de 50 aumentaram os enfrentamentos entre colonizados e colonizadores. Surgiram movimentos de libertação vindos de tribos locais - destaque para o grupo Mau-Mau. Resultado da revolta duramente sufocada pelo exército britânico, o Quênia expulsou os ingleses e em 12 de dezembro de 1963 a Inglaterra reconheceu a independência do país. O governo instalado abriu escolas, e milhões de quenianos tiveram a oportunidade de freqüentá-las pela primeira vez.
 
Começa aí a história de Kimani Ng’ang’a Maruge. Aos 84 anos, veterano do grupo Mau-Mau que lutou bravamente pela independência do Quênia. Nos anos 60, capturado pelos ingleses, foi duramente torturado, teve mulher e filhos assassinados na sua frente. Nunca conseguiu estudar e, quando tudo terminou, se determinou a conseguir vaga na escola primária para aprender a ler e escrever: juntou-se a crianças de seis anos de idade e se sentou ao lado delas. Ajudado pela professora Jane Obinchu, sua maior incentivadora, Maruge e ela foram vítimas de preconceitos, deboches, ataques, repressão, tentativas de extorsão. E de muita inveja, esse terrível, paralisador e atrasado sentimento humano. 
 
Maruge e Jane são personagens de excelente filme inglês, produção BBC, que conta essa edificante história e mostra, ao mesmo tempo, as atrocidades cometidas pela barbárie que toma conta do homem, quando se vê ameaçado pela perda do poder. O filme - The First Grader - traduzido como Uma lição de vida, deveria fazer parte do currículo escolar e ser exibido nas casas brasileiras no lugar das deseducativas novelas. Fantástica, mesmo, é a vida de Maruge que, convidado pela ONU para dar seu testemunho, afirmou que ‘o poder está na caneta’ - posição contramão à de ex-presidente brasileiro para quem ‘a educação nunca fez falta’, que acha ‘leitura um hábito chato’ e que não precisou de escolaridade para ser eleito. 
 
A relação de profundo respeito, admiração mútua e carinho entre professora e aluno mostrada no filme me emocionou: evocou-me lembranças das notícias do que anda acontecendo nas nossas salas de aula, talvez eco das avaliações desairosas dos líderes sobre educação e educadores. Confirmou-me a tese sobre a importância da educação na libertação do espírito humano e na formação da cidadania. Lembrou-me que os discursos dos candidatos à presidência falam de educação como meta utópica e que, se foi distribuído dinheiro nas diversas bolsas, muito pouco foi feito nos últimos anos pelas pastas escolares. Que, horror dos horrores, muitos dos que ocupam lugares estratégicos nas secretarias e ministério da educação mal sabem ler ou escrever e jamais estiveram à frente de uma sala de aulas. Só ‘canetam’. 
 
Kimani Ng’ang’a nasceu no Quênia em 1918, 1919 ou 1920, faleceu em 14 de agosto de 2009. Discursou na ONU para promover a educação gratuita e universal para todos. Figura no Guinness Book como a mais idosa pessoa a começar a escola primária no mundo.
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 
 

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