O maior, daí irrealizável, sonho humano é voltar no tempo, levando na bagagem a experiência acumulada. Mala sem limite de peso, que apenas sonhos podem carregar. Conteúdo: alegrias, tristezas, soluções, experiências, lembranças, decepções, lições, medos. No fundo, a esperança. Deitar, dormir, acordar na casa dos trinta, cabeça na casa dos ‘enta’. Nenhuma ruga, calo ou joanete, energia escoando pelos poros; bunda no lugar, nada despencado, cabelo sadio e pele brilhante.
Acordar cedo, olhar no relógio e se apressar: apenas algumas horas para inúmeras atividades. Ler jornais, organizar a casa, orientar lições dos filhos, fazer compras, passar na casa dos pais e sogros, ligar para as amigas, buscar notícias dos doentes, fazer transporte dos filhos, dividir as atividades da tarde, comprar presente para o coleguinha aniversariante. Levá-los à festa de aniversário! Buscá-los. Ir ao cabeleireiro, fazer as unhas, experimentar a blusa — ma-ra-vi-lho-sa! da vitrine da loja, fazer ginástica, ler um pouco, ir ao banheiro, tomar banho, dar banho nos meninos, organizar as roupas deles, alimentá-los, botá-los para dormir. Deitar com eles, contar história. Apagar a luz. Sair do quarto, tomar outro banho, botar a blusa ma-ra-vi-lho-sa!, passar batom, passar a mão no marido, pegar as chaves do carro e sair de casa. Dormir pouco, acordar com sono, começar tudo de novo na manhã seguinte, com olheiras e baita sorriso no rosto. Era assim. E ainda havia energia para leitura, para clube, para muita, muita coisa mais: a gente não negava fogo para nada.
Se tivesse oportunidade voltaria dessa forma no tempo: trinta anos no corpo e a cabeça de hoje? Sinceramente? No duro? Não. Mulher — falo exclusivamente por mim — com aparência jovem e cabeça de anciã é monstro. Ou chata demais.
A mulher jovem tem o direito e precisa errar — bater a cabeça, hesitar, ter medo — para acertar. Tomara que tenha diante de si diversas situações nevrálgicas, nas quais terá a oportunidade de ponderar. E, com base nas experiências, que aprenda a julgar, decidir, julgar e adquirir condições de se firmar como dona do seu nariz.
Com o tempo — que tudo pode — que se fundamente para decidir seu destino ao enfrentar o momento sublime das opções: fica? Vai? Dá a volta? Comece de novo! Que ninguém — ou nada — impeça a jovem mulher de se construir!
A mulher madura — na casa dos ‘enta’ — não está acabada. Não está velha. Não é decrépita, desgastada ou enfraquecida. No dia a dia, ela ‘já sabe’ um monte de coisas. Já sabe interpretar, dá exemplos — e repete a torto e direito — clichês como pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto; já sabe a inutilidade de lutar contra a maré, pois que não há como um dia após o outro e aprendeu como se acomodar e não se dar por vencida. Já sabe como se esquivar de labaredas, jatos de veneno e superar eventuais ataques que outrora a destruiriam. Está imunizada contra mordidas e picadas virulentas. Já sabe esperar. Já sabe que é um privilégio ter alcançado a marca à qual chegou, vivendo com intensidade dia após dia. Já sabe perdoar. Consegue se perdoar porque se sabe humana e frágil também. Já conhece atalhos de vários caminhos. Já sabe chegar ao destino final pretendido, mesmo que as estradas possam eventualmente confundi-la. Já sabe escutar. Já sabe que alegrias vêm e vão e, assim como ela, todos os seres vivos um dia morrerão. (Há quem não acredite nisso!).
Mulher de ‘enta’, o melhor que a idade me trouxe não foi exatamente a sabedoria porque estou em processo de aprendizagem.
A maior vantagem que vejo é que hoje posso dormir até o olho abrir sozinho, sem sentir qualquer sinal de culpa.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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