Embaraços


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Certeza. Foi na época dos dinossauros. Mas o local do sucedido não desapareceu; as pessoas - em sua maioria estão aí; a lembrança é vívida; o susto e o inusitado continuam nítidos e perceptíveis. Local: classe de vinte e poucos alunos do curso de magistério no Ateneu (Instituto Francano de Ensino). Entre os alunos, Paulo de Tarso Oliveira, Norien Papacídero, Niura - irmã da Martha, Marcos Mazzotta e, também, a esposa de um dos nossos professores. 
 
A maioria das moçoilas daquela classe viviam, em suas vidas particulares, a fase excitante da passagem do namoro para o noivado e, durante o intervalo das aulas conversavam sobre alianças. Não sem razão, o curso normal era chamado ‘espera-marido’. Discussão acirrada: aliança grossa? Fininha? Quadrada? Abaulada? A única que tinha o cobiçado troféu era a casada, e lhe foi solicitado que a tirasse do dedo para deixar as aspirantes experimentarem. E ela assim fez. 
 
Passou de mão em mão. Serviu para algumas, para outras, não. Despertou desejos, brilhou, houve até tempo para sonhos. E aí, a tragédia. Acho que foi comigo. Rejeição? Talvez. O danado do pequeno aro dourado pulou da minha mão, ouvimos seu quicar pelo chão e, como nota musical suspensa no final da ária, súbito silêncio. Era como se o objeto tivesse evaporado. Começou a busca. Tiramos os móveis do lugar. Nada. Procuramos nas gretas no assoalho de madeira. Nada. Removemos o praticável onde se assentavam mesa e cadeira do professor. Nada. Suando em bicas, morrendo de medo da colega, lamentava minha má sina e fazia promessas: que jamais ficaria noiva; que iria parar de fumar; que se eu achasse — que se alguém achasse — eu poria a mão numa lagartixa. Nada. A aliança desaparecera. Foi um inferno aquela semana. Fiquei imaginando como contar aos meus pais, pedir-lhes que aumentasse minha parca receita de professora particular, para ressarcir a perda. Nem sei como sobrevivi. 
 
Mil anos se passaram. Local: minha casa. Recebo visitas, sento-me com elas no sofá que, garantem, pertenceu a Torquato Caleiro. Conversa vai, conversa vem, não lembro se servi café, refresco, chá ou bolacha. Daquele dia ficou nítido e vivo apenas o amargo do meu desapontamento. Pois de repente, o fecho do brinco de argola da minha visita se abriu e caiu. Creio que elogiei a jóia, não me lembro se ela tirou para me mostrar. Desastre. A peça caiu no chão de madeira, reproduziu barulho seco do passado. Quicou rápido, com tempo suficiente para a sensação de revivificação desagradável do passado. Vamos procurar. Afasta poltronas, tira tapete, arrasta móveis. Nada. Passa a mão por dentro das almofadas. Nada. Usa lanterna para iluminar. Nada. A dona do brinco, desconcertada e delicadamente, diz que pode deixar, que uma hora a gente acha. Nunca achamos. A despeito das tentativas, sorveteu. Me perdoe, pedi. Disse que lhe daria outro par de brincos: não precisa. Ainda vamos achar. 
 
Quarta-feira, dia de faxina, a funcionária decidiu limpar de outro jeito as poltronas. Botou-as de pernas para o ar, vasculhou cantinhos empoeirados. Já nem se lembrava mais do brinco pois, quando brilhou num dos interstícios da madeira do braço da cadeira, imaginou que fosse pedacinho de enfeite de natal. Olhou melhor, retirou o objeto com certa dificuldade. Era o tal brinco.
 
Ah! Onde a aliança se escondera? A barra da saia azul-marinho de escola uma das colegas se descosturou. A aliança achou de entrar bem ali. Acomodou-se ali. Coisa de espírito brincalhão — vovó garantiu. Se já devolvi o brinco? Não. Não consigo me lembrar quem o perdeu! Meu filho garante que a perda de memória está ligada à extrema necessidade e ansiedade em encontrar a dona. Mas não custa o apelo: que seja logo, para eu não enlouquecer.
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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