Estopim curto


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Tem gente que me chama de enguiçada. Diz que tenho o estopim deste tamaninho. Que não tenho paciência. Entrei calminha em sapataria da cidade e, depois da vendedora, que mascava chiclete, de cara fazer aquela perguntinha traduzida do inglês — ‘Posso ajudar?’ e me irritar (só) um pouquinho, fiz meu pedido. Tinha interesse em produto bastante especificado. Expliquei todos os detalhes num só borbotão para não perder tempo. Tipo assim: por favor, quero uma sandália de salto baixo, branca, de couro, com tiras, número 36. Pode ser de qualquer modelo, desde que tenha essas tantas características, tá? 
 
Pois bem. A vendedora sumiu (só) um pouquinho: meia hora quase, voltou com sorriso cravado no rosto e disse que daquele jeito que eu pedira, só na próxima semana. Quando perguntei porque tudo que não tem no momento, em qualquer loja, só chegará ‘na próxima semana’, ela se irritou um pouco. Mas sorria ainda quando me entregou sapato social, fechado, preto, de salto alto, com um detalhe: era 37, mas de repente podia servir porque a modelagem era pequena, tá? 
 
E tem gente que me chama de enguiçada. E acha que tenho estopim curto. E diz que não tenho paciência. Calmamente, soltando fogo pelas ventas e pelos cantos da boca, disse para a moça — que, além de continuar mascando chiclete agora olhava de rabo de olho para o celular — eu não era a irmã da Cinderela, era a própria e não conseguiria calçar sapato maior. Ou menor. Que black is beautiful, sim, mas minha necessidade era de um simples par de sandália - sabe? Aquele calçado aberto. E branco! Não tem? Ok. Então tá.
 
Entrei noutra sapataria. Procurei o mesmo produto. A vendedora disse que ‘só ia estar chegando’ na próxima semana (outra vez!) porque a compradora ‘vai estar indo viajar’ e ‘vai estar trazendo’, com certeza. 
 
Quando respondi que quando ela ‘for estar voltando’ que ela ‘poderia estar me avisando’. Membro da família ali presente me chamou de cínica, de debochada, de enguiçada. E disse que tenho mesmo o estopim curtinho.
 
Fui comprar vidrinhos na loja de um e noventa e nove. Pedi quarenta. Depois de receber cotoveladas de tudo quanto é lado porque a loja estava abarrotada, a vendedora colocou minha compra numa caixa. Fui ajudar, ela me disse que não, que tinha que contar. Um por um? Sugeri calmamente para só superpor as outras à primeira camada com dez e multiplicar por quatro. Ela me fuzilou com o olhar. Acho que devolvi o olhar. Enguiçar, não enguicei. Vi nisso, ligeira melhora no meu DNA.
 
Tocou o telefone. Atendi. Doce e melodiosa voz feminina perguntou, com a maior intimidade, se o Fulano estava. (Fulano é meu marido). Longe de ser ciumenta, achei estranho o jeito sexy da moça e perguntei quem era. Deu trabalho, mas ela se identificou. 
 
Era Maria, do telemarketing da Abril. Ele estava, atendeu e logo saiu de casa. Meia hora depois, nova voz, o mesmo tom, a mesma pergunta, outra moça, outra editora. Aí respondi que ele não estava. Onde ele foi? ‘Deve ter saído com a moça da Abril que ligou há pouco’, respondi. Sim, tenho estopim curto, sou mal educada. 
 
Agora, irritada mesmo, encolerizada, exasperada ficava era quando atendia ao telefone e o interlocutor perguntava: ‘Quem?’, esticando à vontade todos os ee e os mm. Ficava. Agora, logo após a pessoa parar de esticar, eu respondo e levo o mesmo tempo prolongando minhas vogais: ‘eu!’. Todos os ee, todos os uu. Não deixo mais o estopim pegar fogo, mas fico com uma dor de cabeça danada. Não sei não, estou prestes a achar que é melhor explodir. (Publicada em 7 de novembro de 2005. Modificada e reescrita em agosto de 2014.) 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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